quarta-feira, 31 de março de 2021

Voce pode contar consigo ?


Nesses tempos difíceis ou em qualquer outro, onde encontramos nossa segurança?

Falar de segurança quando atravessamos luto, fome, desamparo, desconfiança e ameaça à própria vida e a dos que amamos parece não fazer sentido. É um desafio e tanto!

Todo esse contexto nos coloca entre "as nossas quatro paredes"! Quem encontramos entre elas? 

Depois do muito ou do pouco que, ainda, pode nos satisfazer ou distrair - quem resta?

- Nós e o outro! Já não há muito entre um e outro. O estreitamento dessa convivência entre nós e o outro traz muitas questões e desafios como o contar cada vez mais consigo mesmo para se suportar (em ambos os sentidos!).

Como está a convivência consigo mesmo? Está atento aos seus sentimentos? Tem sido compreensivo ou impaciente consigo?
Respeita seus limites? Enfim:

- Você pode contar consigo ? O sentimento de confiança em si é suficiente para ficar bem com você e com o outro? Encontra paz entre suas paredes, ou seja, em sua própria vida? 

O que o acalma? O que o tira do tédio? Como lida com o estresse das frustrações? Como alimenta sua alma?   

Saber cuidar de si é, também, requisito para cuidar do outro. Saber que pode contar consigo, com seus recursos, com sua satisfação pessoal diminui as expectativas sobre o outro que, por sua vez, ocupando-se de si está em igualdade, lado a lado nessa grande aventura que é viver!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O sentido da vida

Diante da ameaça real, da vulnerabilidade da vida por conta da pandemia que nos aflige e que, volto a dizer, traz ameaça direta à vida, quantas questões não nos são colocadas sobre ela - a própria vida?

Nós que estamos sempre nos questionando a respeito do seu sentido, dramaticamente, podemos constatar que ela em si é a razão, o sentido último. 

Respirar dá sentido à vida! Não morremos sem oxigênio?!

Não estamos entristecidos e até deprimidos por não estarmos na presença dos nossos queridos vendo-os simplesmente, ouvindo-os sem ter a máscara como abafador? A impossibilidade de transmitir afeto, através de um simples aperto de mãos, sorriso, abraços e, até mesmo, o  simples cumprimento dos gestos sociais não têm sido notados como algo que traz e dá sentido às nossas vidas? "Como"do oxigênio, precisamos uns dos outros.

O necessário uso da máscara, o rigor na higiene pessoal e de tudo que entra nas nossas casas, assim como as condições precárias a que muitos  estão expostos têm deixado claro, para muitos de nós, que estar vivo é o maior sentido da vida - que deve ser preservada a qualquer custo. 


Quando não mais tivermos que preservá-la da maneira recomendada para atravessarmos esse tempo difícil, que a vida permaneça nesse lugar de atenção, para que não deixemos escapar o que, realmente, preserva e dá condições para que sigamos em frente, com dignidade e compaixão.

Que não nos falte coragem, para lutar pelo direito pleno à ela!


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

"Narcisos" e "Ecos"

 

Ah, se Narciso pudesse entender que a imagem por quem se apaixonou era a da própria alma! Quem sabe assim, tivesse evitado a fama de ser apaixonado pela sua aparência! Quem sabe, tivesse chegado ao século 21 com um ego menos inflado, menos crente em um eu grandioso exibicionista que, como tal, tem-se em alta conta, mas vive buscando ser refletido pelo olhar de admiradores e/ou seguidores!

Quanto esforço precisa ser feito para manter esse poder? Quanto precisa se desdobrar para manter o que infla o ego, para que cada vez mais possa se exibir e, admirado, compensar sua baixa autoestima?

Ah, se Narciso pudesse entender que havia um Si-mesmo a conhecer... Quem sabe, descobrisse a fonte de satisfação que não só o levaria ao amor próprio genuíno, como à relação, de fato, com o outro – que, por sua vez deixaria de ser usado e descartado à medida de seus interesses... Afinal, vimos que o papel do outro na vida do narcisista é de mero reflexo de sua grandiosidade! É de alguém, portanto, que não precisa ser visto, ouvido, considerado. É alguém que está ali só para confirmá-lo, agradá-lo e, ainda, se dar por satisfeito por ter sido eleito por ele, para estar em sua companhia!

Nesse lugar, quase sempre, encontramos Eco que chegou até aqui, acreditando que em algum momento fosse ser vista e reconhecida por dar o seu melhor, renunciando a si (necessidades, desejos, projetos, amigos etc.) em favor dele (a) narcisista.

Que parceria encontramos aqui?

“Narcisos” perdidos nos reflexos da sua imagem. “Ecos”, tendo olhos só para o outro, perdida de si mesma, aceitando viver de migalhas e, repetindo só o que Narciso quer ouvir! Ambos, no desiquilíbrio de si mesmos, constroem uma relação de co-dependência. Tanto um como outro, egoísta e generoso, alimentam de vaidade o próprio ego: narcisistas pela grandiosidade do seu eu e “Ecos” pela grandiosidade dos gestos de generosidade em favor deles.

 

O equilíbrio deve vir do eixo ego-Si-mesmo. Quando o ego está inflado descompensa a gangorra em que na outra extremidade está a alma (Self, Si-mesmo junguianos). A compensação ou complementação de cada um, não está no outro. Narcisistas têm que buscar o encontro consigo, através do processo de autoconhecimento. Nele está o que buscam fora de si; assim, como as(os) "Ecos" têm que doar para si o que tão facilmente ofertam ao outro.

O autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal à luz da alma, cuja vocação é a autorrealização são condições sine qua non, para relações maduras e equilibradas – tanto consigo mesmo, como com o outro.

 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A urgente tarefa de separar o joio do trigo

Separar o ser humano daquilo que faz ou representa, torna-se cada vez mais imperativo. 

As crises sucessivas que acompanhamos têm nos colocado diante dessa tarefa de separação, que muitas vezes é bastante sutil.

Por mais decepcionantes ou dolorosas que sejam, as crises podem trazer ou ampliar consciência, redirecionando expectativas.

O senso crítico assim favorecido, amplia a capacidade de questionar, de reivindicar que papéis sejam, de fato, exercidos com dignidade . 

Estar como chefe de estado, como representante do povo ou como líder religioso não garante que o desempenho seja o esperado. Muitas vezes, tais representantes deixam de atender a condição sine qua non desses mesmos cargos ou representações. Sugerem assim, que se veem de maneira inflacionada, exibindo um eu grandioso que não se sujeita ao que dele se espera, que serve exclusivamente à sua própria vontade e vaidade.

Saber que representam e não são o representado mantem valores, senso de dever, de responsabilidade e justiça por parte de todos. 

Diante da falta de interesse e respeito pelo bem comum, pela necessidade de justiça (em todos os sentidos) e pela fé depositada em confiança em muitos desses representantes, cujos comportamentos trazem à luz a incongruência entre ser e estar - urge estarmos vigilantes!
A consciência da importância de uma participação crítica da sociedade é imprescindível à tarefa de separar o joio do trigo.


terça-feira, 21 de julho de 2020

Sem medo de Perder - e os enfrentamentos da mulher à luz do mito Eros e Psiquê


Se meu medo de perder Me faz perder Perder o medo Me faz pensar: Não tendo o que temo perder Nada preciso temer! M Idalina Ottoni de Andrade É assim, que ao enfrentar o medo de perder , que Psiquê aproxima-se de Eros - que a havia proibido de vê-lo, e de fazer qualquer pergunta sobre seus atos, sob pena de abandoná-la. No paraíso em que mora, Psiquê tem tudo que deseja; entretanto, não deve esquecer a restrição imposta. Suas irmãs inconformadas com isso e com o fato de Psiquê ter desposado um deus cuja aparência é monstruosa a instigam a ve-lo, apesar do risco de contrariá-lo. Numa noite, enquanto Eros dormia, Psique aproxima, cuidadosamente, uma lamparina de seu rosto. Uma gota de azeite cai sobre o peito de Eros que desperta e cumpre sua promessa: voa para longe, abandonando Psiquê. Desesperada com a perda do casamento e de suas próprias ilusões - porque, de fato, nem conhecer Eros ela conhecia - vai até Afrodite (mãe de Eros) e roga para que o faça voltar para ela. Ao procurar por Afrodite está recorrendo à sua feminilidade básica e recebe tarefas que são necessárias para que alcance os estágios de sua evolução. (SHE, pag 50). São dessas tarefas que as mulheres podem se beneficiar ao perderem o medo de perder! Eros pode ser interpretado como o"homem de carne e osso" ou como o Animus - a contraparte masculina da psique feminina - que habita o interior da mulher. Desse lugar pode auxiliá-la em seus enfrentamentos. Fora dele confunde a mulher, iludindo-a quanto à sua verdadeira força. Aqui, vamos considerar Eros como Animus. Eros ao abandonar Psique está, involuntariamente, liberando-a para que conquiste sua autonomia como mulher. Psiquê ao recorrer a Afrodite recebe tarefas, que a deusa julgava impossíveis de serem cumpridas. Seriam mesmo se, ao enfrentá-las não recebesse ajuda, através dos recursos "enviados por Animus". A cada tarefa executada Psiquê atinge um grau de consciência, aptidão e evolui como mulher. A primeira tarefa é separar. Separar sementes, grãos em pilhas. Psiquê usa seu instinto e coloca cada grão, cada semente em seu lugar. Desta maneira, transforma a confusão em ordem. Quando há confusão entre sentimentos, necessidades, desejos, motivos e obrigações - é preciso olhar para cada um deles e separá-los. A segunda tarefa envolve estratégia, para o enfrentamento de forças que podem destruir Psiquê. Afrodite pede lã dos tosãos dourados. Missão impossível . Se Psique enfrentá-los morre. Se não levar a lã, também, morre! Num primeiro momento, pensa em suicídio. Não se vê capaz de executar essa tarefa. Entretanto, mais uma vez recebe auxílio do seu interior. Acalma-se e ouve uma voz vinda de dentro: se esperar o momento certo de agir poderá aproveitar a lã que deixam pelo caminho. É só ter paciência e esperar o sol cair. Ao entardecer recolhe uma grande quantidade de lã dourada que os tosãos deixaram pelo caminho e a entrega a Afrodite que, mais uma vez é surpreendida por Psiquê. Terceira tarefa: ganhar distância dos problemas, para deles tirar só o necessário. Sem neles mergulhar. Desta vez, Afrodite quer ver se Psiquê é mesmo a autora das tarefas e a empurra para fora do castelo, designando a terceira tarefa. Mostra o pico de um monte elevado, de onde brota a fonte do rio Estige. Entrega-lhe um frasco pequeno de cristal e pede a Psiquê que traga um pouco da água da fonte. Mais uma vez, no seu íntimo deseja a própria morte. De fato, a tarefa oferecia muitos riscos devido ao grau de complexidade. Não havia como subir. Imóvel, recebe ajuda dos céus: Zeus envia sua águia, para executar a tarefa. A águia de Zeus é um símbolo do masculino. Ave de rapina, que na distância encontra o melhor momento de agir e de tirar para si o que necessita. Ter essa visão distanciada do problema e tirar dele só o necessário é mais uma função do masculino interior. A falta dessa perspectiva imobiliza, paralisa a mulher como ficou Psiquê, diante da imensidão dessa terceira tarefa. As habilidades a serem desenvolvidas pelas mulheres, diante das mais complexas situações de vida, são: Separar, para organizar. Usar seus instintos, sua intuição para separar suas necessidades, seus motivos, desejos, sentimentos, pensamentos a fim de sair da confusão em que se encontram. Esperar o melhor momento de agir. Deixar passar a raiva, a ira, ou seja, aquilo que pode destruir a si mesma, caso "bata de frente" com essa força. Ganhar distância do problema, para ter nova perspectiva dele e, assim, agir sem nele se perder. Afrodite, certamente, não ficou satisfeita com a entrega de Psiquê e lhe deu mais tarefas. Na quarta ela terá que descer ao mundo dos mortos, para trazer um dos segredos de beleza da rainha Persefone, a esposa de Hades. Tarefa que foge ao objetivo dessa parte do mito, que trabalha aspectos masculinos pouco desenvolvidos em Psiquê, os quais, foram aqui trabalhados.








segunda-feira, 15 de junho de 2020

As exigências da pandemia

Há muitas implicações sobre o comportamento humano, diante de circunstâncias como as que vivenciamos no momento: a ameaça real à vida , por conta do alto risco de contaminação pelo vírus Covid -19.

Diante de tal ameaça fomos isolados ( à medida do possível ), passando a conviver dentro de espaços que perderam quase todos os seus limites. Casais, pais e filhos dividem o espaço que ocupavam juntos algumas horas do dia, agora em tempo integral,tendo somadas a isso as tarefas de casa, o home office, atividades escolares e recreativas. A escola conta, ainda mais, com pais que, até pouco tempo atrás, contavam com ela para a  educação de seus filhos. 

As privações decorrentes das medidas tomadas e a sobrecarga desse convívio imposto não poderiam resultar, na grande maioria dos casos, senão em comportamentos como irritabilidade, alta suscetibilidade, perda fácil de autocontrole - além do alto nível de ansiedade, e outros sintomas mais sérios e desestruturantes.

Fomos bombardeados pela mídia com sugestões para ocupar o tempo (já tão ocupado pelo extraordinário da situação), além das muitas informações sobre o próprio vírus. E, como não poderia ser diferente, fomos nos adaptando. Estamos nos adaptando. Podemos até encontrar os que vem se reinventando, criando novas formas de estar e se relacionar.

Contudo, não deixo de considerar a imensa dificuldade que isso possa ser para os pais de hoje, que já não foram educados para o sacrifício, para  renúncias; enfim, para tolerância à frustração e com pouca noção de limites.
Para os pais que são filhos de pais que viveram muita repressão tampouco suportariam ver seus filhos, as novas majestades, serem a ela submetidos.

Considero, igualmente, a dificuldade que possam ter por conta da falta de limites entre o mundo dos adultos e o das crianças - propiciada pelas mudanças no estilo de vida e até de moradia (casa, para apartamentos). Mas, principalmente, por conta da pouca importância dada à autoridade dos pais - que passaram a atender as demandas dos filhos como súditos ou como seus amiguinhos - de igual para igual. Pais que não aprenderam a ser o adulto da relação e na relação com seus filhos - suas escolhas - estão se vendo diante dessa realidade imposta, como aquele que terá que se frustar, renunciar ao seu tempo, aos seus desejos, para tornar possível a nova rotina, dentro e fora de casa.

Animadora me parece a possibilidade de um espaço intra subjetivo, um oásis, um paraíso que é criado, exatamente quando há resistência à frustração, renúncia e sacrifícios em favor do outro que amamos,e por quem somos responsáveis. Paradoxo, também, explicado pelo amadurecimento da empatia e da capacidade de amar.




terça-feira, 19 de maio de 2020

Encapsulados

Quanto da busca realizada durante a navegação em aplicativos, sites de relacionamento etc feita em um dia fica retido?

Quanto tempo consegue ficar sem "novidades"?

Quanto tempo é capaz de dispor para ler um texto, às vezes, de pouco mais de um parágrafo ou assistir a um vídeo que dure mais do que dois, três minutos?

Quanto tempo consegue ficar longe do seu celular?

As respostas à essas perguntas podem levar a um dado de realidade bastante preocupante: não só o esquecimento de boa parte desse conteúdo é certo; assim como o são a irritabilidade, a impaciência diante de conteúdos mais extensos ou da necessidade de fazer alguma reflexão.

Impaciência observada,também,  com as pessoas - que têm seu próprio tempo para desenvolver um raciocínio, sua cadência de fala etc..  

A imagem de pessoas encapsuladas caminhando lado a lado numa ilustração, fez com que pensasse na dificuldade de relacionamento dada, também, pela pouca disponibilidade de escuta do outro, pela intolerância  para com as diferenças de opinião, visão de mundo, entre outras.

A pressa para voltar à sua capsula, onde as coisas acontecem ao próprio ritmo, ao próprio gosto parecem caracterizar as relações no mundo contemporâneo - antes e durante a pandemia. Ainda mais evidenciada,no caso da pandemia, fragilizando os vínculos que dariam sustentação para esse momento tão delicado que atravessamos. 

Que o outro não seja visto só como um vetor de contaminação, motivo de irritação ao solicitar que saia por algum tempo de sua cápsula - seja ela qual for! Que, ao contrário, seja aquele que espelhe sua própria necessidade de ser acolhido, ouvido e compreendido.