terça-feira, 15 de setembro de 2026

A importância dos pais na vida de suas filhas: a ferida pai - filha

 A filha sofre grande e profunda influência no seu relacionamento com o pai. Afinal, ele é a primeira figura masculina de sua vida. Através dele formará os parametros pelos quais se pautará para, tanto se relacionar com seu lado masculino (animus), como com os homens.

Como ele é o "outro" - diferente dela e da mãe, o pai tambem molda a alteridade, a singularidade e individualidade da filha.

Um dos papéis paternos é conduzir a filha ao mundo exterior, ajudando-a a enfrentá-lo em seus conflitos e desafios.

A atitude dele em relação ao trabalho e ao sucesso será formadora da atitude da filha: se for confiante e bem sucedido - ela, também, poderá ser. Se tiver medo e não for bem sucedido, é provável que ela adote essa atitude temerosa.

O pai costuma, ainda, projetar seus ideais sobre a filha. Funciona como modelo de autoridade, de responsabilidade, de tomada de decisões, de objetividade, de ordem e de disciplina. Da relação do pai com essas áreas dependerá a relação da filha com elas. Ela terá uma relação rígida ou relaxada conforme o modelo do pai.

Alguns erros dos pais: 

- A indulgência aparece em pais cujos limites internos não são bem estabelecidos, assim como, a própria autoridade interior não é. Pais sem critérios de ordem e disciplina, são pais que constituem modelos inadequados para a filha quanto aos seus próprios limites e orientação interna.

-  Evitar conflitos da vida prática e serem incapazes de se comprometer. Geralmente, esses são os homens sonhadores, cuja vida é provisória, uma vez que não terminam o que iniciam.Costumam viver no reino das possibilidades, evitando a dimensão concreta das coisas. As filhas desses eternos meninos crescem sem modelos adequados de autodisciplina, de limite, de autoridade.Sofrem com a sensação de insegurança, de instabilidade, de falta de autoconfiança e de ansiedade Em geral, têm um ego débil. 

Como no caso dos pais fracos, as filhas dos sonhadores poderão inconscientemente consolidar uma imagem ideal de homem e pai, passando a vida em busca desse homem e desse pai ideal. O risco, nesses casos, é da filha ficar ligada a um "amante imaginário", ou seja, a um ideal que existe apenas em sua imaginação.

- Rigidez. Duros, frios, às vezes, indiferentes esses pais costumam enfatizar a obediência, o dever e a racionalidade. Em geral, são homens distantes da vitalidade existencial, alienados do próprio lado feminino e da sensibilidade. Insistem para que suas filhas tenham os mesmos valores. Por outro lado, o positivo, a ênfase na autoridade e no dever  gera uma sensação de estabilidade, de estrutura e segurança em seus filhos. Do lado negativo, tendem a depreciar expressões femininas como sensibilidade, doçura e espontaneidade, tanto das filhas como dos filhos.

Os pares de pai e mãe formados são outro fator importante no desenvolvimento emocional, social, profissional e relacional das filhas.

O pai que é um eterno menino, em geral, tem uma "mãe" como esposa. É ela quem domina a casa, disciplina e a família. Dela vem os valores, a ordem, a autoridade e a estrutura que normalmente viriam do pai. Quando o pai é fraco e indulgente e a mãe é forte e controladora, a filha tem um duplo problema: 1- não ter o pai como modelo masculino. Ele não só nao enfrenta a esposa, como não ajuda a filha a se diferenciar dela. Nesse caso, a filha pode se manter ligada e identificada com a mãe, adotando inconscientemente as mesmas atitudes rigidas dela. 2- a mãe tendo que funcionar como pai muitas vezes não consegue oferecer um verdadeiro atendimento à filha. Esta fica sem receber os cuidados e os modelos adequados de funcionamento da figura feminina e da masculina.

O velho rígido forma par constrastante com uma mulher tipo "filha", como esposa. Nesse caso, tanto a mãe como a filha são dominadas por ele. A mãe em sua dependência passiva, não fornece um modelo de autêntica independência feminina. Por conseguinte, a filha corre o risco de : ou de repetir o padrão de dependência feminina ou de se revoltar. Caso se revolte o fará como defesa contra a autoridade do pai, e não como expressão dos valores e necessidades femininas próprios. Isso a ajuda a desenvolver uma carreira profissional bem sucedida que a capacita a ter voz no mundo "do pai"; entretanto, pode se defender e se alienar da própria criatividade, de relacionamentos saudáveis com os homens, da sua espontaneidade e alegria de viver o momento.

Quando o casal é de eternos jovens: o mais comum é haver pouca estabilidade, estrutura ou autoridade em ambos. Nesses casos, o compromisso deles é possível que seja tênue, dissolvendo tanto o casamento como a família, deixando a filha num estado de caos e ansiedade. Pode haver, em contrapartida, um casal formado por pais rígidos e idosos, privando duplamente a filha das fontes de espontaneidade e dos sentimentos. 

Quando o pai é viciado em jogos de azar, não tem estabilidade nos empregos e a mãe é pessimista e deprimida, há falta de modelo adulto para o sucesso. A tendência da filha é ter um estilo de vida desestruturado e sem limites. Aqui, também, podem aparecer dificuldades para se disciplinar, ter uma vida afetiva saudável; assim como, abusar das drogas, ter problema de peso e uma relação complicada com dinheiro.

Pai alcoolista gera desconfiança na filha quanto aos homens, vergonha, culpa e falta de confiança em si.

Pai que deseja menino e tem uma filha, geralmente espera que a filha realize o que ele não conseguiu realizar em sua propria vida, como faria com um menino. Filha presa ao ideal do pai.

Pai que ama demais pode transformar a filha em substituta da mulher ausente no seu papel amoroso. Presa nesse lugar não se sente livre para amar outros homens e não amadurece emocionalmente. Pode ser tornar a eterna menina.

Pai abusivo, domínio sobre a vida da filha.


Enfim, essas são algumas das possíveis maneiras de pais se relacionarem com suas filhas. Certamente, encontraremos outros modelos de relacionamento, de feridas e de enfrentamento delas por parte das filhas. Esses modelos são os que se aproximam daqueles que, mais frequentemente, encontramos na clínica de mulheres feridas.

É muito importante que cada uma entenda como o pai pôde exercer sua paternidade e como isso afetou sua vida. A compreensão disso leva a uma possível reaproximação desse pai e, principalmente, à construção de uma imagem paterna que poderá, então, abastecê-la interiormente de força e orientação. A partir dessa reconstrução o valor da dimensão masculina, tanto interna como externamente, será transformada. 

Feridas causadas no e pelo relacionamento com o pai precisam ser entendidas para serem aceitas. Dessa aceitação poderá  advir a cura e a compaixão pela filha, pelo pai e pela relação entre ambos.


 






  

Bibliografia:

A mulher ferida - em busca de um relacionamento saudável entre homem e mulher

 Leonard, S. Linda

ed Saraiva 1a. edição 1990

 




quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aristóteles × Jung

Qual a relação entre o conceito de Eudaimonia de Aristóteles e o conceito de individuação de Carl G. Jung?


Na Eudaimonia de Aristóteles, o ser humano deve viver – florescer – de acordo com sua própria natureza, exercendo suas virtudes e alcançando seu potencial máximo. É um tornar-se a ser. (Não nascemos com esse potencial desenvolvido. Não nascemos prontos.)


A felicidade, portanto, para Aristóteles é um estado onde o potencial de cada um é atingido, através da prática constante.


Na Individuação, conceito central da psicologia junguiana, o sentido da vida está na busca pela autenticidade de cada ser - a partir da integração de várias partes da psique (persona -sombra- animus/anima e Self). 

A Individuação é o processo psicológico do tornar-se a pessoa única e inteira que nascemos para ser.


A vida vivida em harmonia com a natureza mais profunda de cada um é a felicidade que tanto se busca. É o sentido próprio da vida, que podemos extrair tanto de Aristóteles,como de Jung.

Há, portanto, uma conexão bem estreita entre Aristóteles e Jung, a partir dos conceitos de Eudaimonia e Individuação. 

Parte do processo de autoconhecimento, inclusive, requer a prática das virtudes, das características que vão sendo descobertas como autênticas, durante esse processo. É condição "sine qua non" para que haja a transformação que se busca nos dois  processos. Em ambos os pensadores.


 



segunda-feira, 25 de maio de 2026

O código do ser

Somos mais de 8 bilhões e o código digital não se repete. Não há um igual ao outro, em nenhum caso.
É um código único entre esses bilhões de seres humanos.

O mapa das digitais é "impresso", durante a gestação e está codificado nas linhas de cada digital sob as camadas superficiais da pele, onde podemos vê-las. 
Entretanto, não é incomum serem apagadas por agressões à pele ou desgaste natural dela. Apesar disso, recuperam-se com tratamento adequado e suspensão desses elementos agressores.

Analogamente,temos um código único - o Self (Si-mesmo). Um código sem igual, em nenhum caso. Um verdadeiro mapa de nós mesmos!

Esse mapa pode estar escondido sob o peso das ilusões, das defesas do ego e dos complexos transtornos. 
Assim como no caso das digitais, agentes agressores do meio, de todo tipo, também, ajudam a nos confundir e a desviar os caminhos que nos levam ao Si-mesmo.

A tomada de consciência dessas camadas que se sobrepõem e nos  desviam de quem somos - torna possível ir ao encontro de si .
É o tratamento que torna possível nos conhecer e, finalmente, estar em paz consigo mesmo e com a vida - com tudo que vem com ela.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Os efeitos curativos da escuta qualificada

As mudanças promovidas pelo fluxo rápido de conteúdo, especialmente, nas redes sociais, provocam muitas reflexões acerca do comportamento humano contemporâneo. 

Entre essas, a reflexão sobre a capacidade de envolvimento na jornada rumo ao autoconhecimento. 

Impaciência, traço comum hoje à maioria das pessoas, tem feito com que dedicação, responsabilidade para consigo mesmo, tolerância à frustração apareçam na hora da escolha por esse ou aquele processo psicoterapêutico.

A jornada rumo a si mesmo, traz à consciência possíveis causas do sofrimento em forma de angústia e paralisia diante da própria vida. 

Os muitos sintomas apresentados tanto pelo indivíduo, como pela coletividade são oportunidades de tomada de consciência. São oportunidades para falar e ser ouvido (a).

O processo analítico em suas várias correntes, tem sido repensado. Entretanto, a sua essência continua fazendo diferença: a escuta atenta e qualificada da fala do analisando. 

A análise é  um processo de dentro para fora.

Ao encontrar na escuta do analista espaço para os pensamentos, sentimentos e visão de si e de mundo o sujeito apropria-se dos recursos que estavam bloqueados pelos sintomas e seu sofrimento. E, aos poucos, modifica seus comportamentos. 

A pessoa passa a ser o sujeito de suas escolhas e da maneira única de viver a própria vida: objetivos de toda jornada  bem sucedida de autoconhecimento.  


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Falta um: a angústia e a jornada da incompletude humana

Falta um!  Falta um objeto, para completar, para sanar a angústia da falta.

Falta um para que, com a idealização da completude, o sentimento de onipotência volte a ser vivenciado, como já o foi no paraíso, na mitologia grega ( o mito do homem redondo) e na relação mãe/bebê.

Falta um! Um objeto que precisa ser encontrado a todo custo para que a vida siga, ganhe sentido e, finalmente, livre o homem da angústia existencial. Nessa busca, encontramos as mais variadas formas de compulsão e sofrimento. 

Em sua incompletude, o ser humano vivencia  a angústia da sua existência única, separada. Sobretudo, é através da falta que se pode movimentar para lidar com a angústia. Não há o objeto perfeito, o jeito perfeito de se fazer, de se relacionar e de ser. Sempre, haverá um vazio!

O jogo  conhecido como puzzle de deslizamento ou quebra cabeça deslizante ajuda a compreender melhor o papel da angústia existencial ou o papel da falta na condição humana: não fosse o quadrado vazio, não haveria como fazer os deslizamentos para completar as sequências do jogo. Apesar do quebra cabeça ser resolvido, ainda, resta um vazio!

Assim, é!

A "falta" se revela como uma força motriz na experiência humana, impulsionando a busca por significado e completude. A angústia gerada pela separação e pela incompletude não deve ser vista apenas como um fardo, mas como um convite à ação e à reflexão. Assim como no quebra-cabeça, é no espaço vazio que encontramos a oportunidade de nos mover, de buscar e de nos reinventar. Ao abraçar essa falta, podemos transformar a angústia em um caminho para a autodescoberta e para a construção de uma vida mais plena.






segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O estado borderline da sociedade

Perdemos os contornos da etiqueta, da ética, do sagrado (em si e em nós). Já não nos reconhecemos no outro! Estamos, cada vez mais, desaprendendo a argumentar racionalmente, objetivamente e com respeito. Passamos a defender pontos de vista, com parcialidade e agressividade impulsiva - aos berros, murros, tiros e perversidade.

A linha que separa o são do insano está borrada, tênue. A racionalidade contaminada por impulsos. O público e o privado cada vez mais indiferenciado.


A lei do menor esforço vigora na busca do prazer, como fonte de poder. E, no imperativo desse poder o humano vem se aproximando do caos, da desgovernança de si e da sociedade.

Uma sociedade saudável e sagrada é consciente  dos valores que a orientam e que, portanto, precisam ser defendidos e preservados para uma existência digna daqueles que a compõem. 





domingo, 7 de dezembro de 2025

Mais um ano vai se encerrando e, com ele, o acompanhamento de pessoas em psicoterapia. 
Pessoas que ouviram suas dificuldades e que se puseram a caminhar, confiando no processo psicoterapêutico e no trabalho que realizamos juntos (as).
Até mesmo,  mudanças sutis resultam em menos sofrimento, em mais sabedoria nesse caminhar mais autêntico. Admiro a coragem, a dedicação e a entrega ao processo de autoconhecimento que a psicoterapia proporciona. 
Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Boas festas!