A filha sofre grande e profunda influência no seu relacionamento com o pai. Afinal, ele é a primeira figura masculina de sua vida. Através dele formará os parametros pelos quais se pautará para, tanto se relacionar com seu lado masculino (animus), como com os homens.
Como ele é o "outro" - diferente dela e da mãe, o pai tambem molda a alteridade, a singularidade e individualidade da filha.
Um dos papéis paternos é conduzir a filha ao mundo exterior, ajudando-a a enfrentá-lo em seus conflitos e desafios.
A atitude dele em relação ao trabalho e ao sucesso será formadora da atitude da filha: se for confiante e bem sucedido - ela, também, poderá ser. Se tiver medo e não for bem sucedido, é provável que ela adote essa atitude temerosa.
O pai costuma, ainda, projetar seus ideais sobre a filha. Funciona como modelo de autoridade, de responsabilidade, de tomada de decisões, de objetividade, de ordem e de disciplina. Da relação do pai com essas áreas dependerá a relação da filha com elas. Ela terá uma relação rígida ou relaxada conforme o modelo do pai.
Alguns erros dos pais:
- A indulgência aparece em pais cujos limites internos não são bem estabelecidos, assim como, a própria autoridade interior não é. Pais sem critérios de ordem e disciplina, são pais que constituem modelos inadequados para a filha quanto aos seus próprios limites e orientação interna.
- Evitar conflitos da vida prática e serem incapazes de se comprometer. Geralmente, esses são os homens sonhadores, cuja vida é provisória, uma vez que não terminam o que iniciam.Costumam viver no reino das possibilidades, evitando a dimensão concreta das coisas. As filhas desses eternos meninos crescem sem modelos adequados de autodisciplina, de limite, de autoridade.Sofrem com a sensação de insegurança, de instabilidade, de falta de autoconfiança e de ansiedade Em geral, têm um ego débil.
Como no caso dos pais fracos, as filhas dos sonhadores poderão inconscientemente consolidar uma imagem ideal de homem e pai, passando a vida em busca desse homem e desse pai ideal. O risco, nesses casos, é da filha ficar ligada a um "amante imaginário", ou seja, a um ideal que existe apenas em sua imaginação.
- Rigidez. Duros, frios, às vezes, indiferentes esses pais costumam enfatizar a obediência, o dever e a racionalidade. Em geral, são homens distantes da vitalidade existencial, alienados do próprio lado feminino e da sensibilidade. Insistem para que suas filhas tenham os mesmos valores. Por outro lado, o positivo, a ênfase na autoridade e no dever gera uma sensação de estabilidade, de estrutura e segurança em seus filhos. Do lado negativo, tendem a depreciar expressões femininas como sensibilidade, doçura e espontaneidade, tanto das filhas como dos filhos.
Os pares de pai e mãe formados são outro fator importante no desenvolvimento emocional, social, profissional e relacional das filhas.
O pai que é um eterno menino, em geral, tem uma "mãe" como esposa. É ela quem domina a casa, disciplina e a família. Dela vem os valores, a ordem, a autoridade e a estrutura que normalmente viriam do pai. Quando o pai é fraco e indulgente e a mãe é forte e controladora, a filha tem um duplo problema: 1- não ter o pai como modelo masculino. Ele não só nao enfrenta a esposa, como não ajuda a filha a se diferenciar dela. Nesse caso, a filha pode se manter ligada e identificada com a mãe, adotando inconscientemente as mesmas atitudes rigidas dela. 2- a mãe tendo que funcionar como pai muitas vezes não consegue oferecer um verdadeiro atendimento à filha. Esta fica sem receber os cuidados e os modelos adequados de funcionamento da figura feminina e da masculina.
O velho rígido forma par constrastante com uma mulher tipo "filha", como esposa. Nesse caso, tanto a mãe como a filha são dominadas por ele. A mãe em sua dependência passiva, não fornece um modelo de autêntica independência feminina. Por conseguinte, a filha corre o risco de : ou de repetir o padrão de dependência feminina ou de se revoltar. Caso se revolte o fará como defesa contra a autoridade do pai, e não como expressão dos valores e necessidades femininas próprios. Isso a ajuda a desenvolver uma carreira profissional bem sucedida que a capacita a ter voz no mundo "do pai"; entretanto, pode se defender e se alienar da própria criatividade, de relacionamentos saudáveis com os homens, da sua espontaneidade e alegria de viver o momento.
Quando o casal é de eternos jovens: o mais comum é haver pouca estabilidade, estrutura ou autoridade em ambos. Nesses casos, o compromisso deles é possível que seja tênue, dissolvendo tanto o casamento como a família, deixando a filha num estado de caos e ansiedade. Pode haver, em contrapartida, um casal formado por pais rígidos e idosos, privando duplamente a filha das fontes de espontaneidade e dos sentimentos.
Quando o pai é viciado em jogos de azar, não tem estabilidade nos empregos e a mãe é pessimista e deprimida, há falta de modelo adulto para o sucesso. A tendência da filha é ter um estilo de vida desestruturado e sem limites. Aqui, também, podem aparecer dificuldades para se disciplinar, ter uma vida afetiva saudável; assim como, abusar das drogas, ter problema de peso e uma relação complicada com dinheiro.
Pai alcoolista gera desconfiança na filha quanto aos homens, vergonha, culpa e falta de confiança em si.
Pai que deseja menino e tem uma filha, geralmente espera que a filha realize o que ele não conseguiu realizar em sua propria vida, como faria com um menino. Filha presa ao ideal do pai.
Pai que ama demais pode transformar a filha em substituta da mulher ausente no seu papel amoroso. Presa nesse lugar não se sente livre para amar outros homens e não amadurece emocionalmente. Pode ser tornar a eterna menina.
Pai abusivo, domínio sobre a vida da filha.
Enfim, essas são algumas das possíveis maneiras de pais se relacionarem com suas filhas. Certamente, encontraremos outros modelos de relacionamento, de feridas e de enfrentamento delas por parte das filhas. Esses modelos são os que se aproximam daqueles que, mais frequentemente, encontramos na clínica de mulheres feridas.
É muito importante que cada uma entenda como o pai pôde exercer sua paternidade e como isso afetou sua vida. A compreensão disso leva a uma possível reaproximação desse pai e, principalmente, à construção de uma imagem paterna que poderá, então, abastecê-la interiormente de força e orientação. A partir dessa reconstrução o valor da dimensão masculina, tanto interna como externamente, será transformada.
Feridas causadas no e pelo relacionamento com o pai precisam ser entendidas para serem aceitas. Dessa aceitação poderá advir a cura e a compaixão pela filha, pelo pai e pela relação entre ambos.
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Bibliografia:
A mulher ferida - em busca de um relacionamento saudável entre homem e mulher
Leonard, S. Linda
ed Saraiva 1a. edição 1990