segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Tecnologia e o Homem

Diante da crescente exposição do homem  à tecnologia , fica a questão: quanto estamos perdendo da nossa humanidade? 

Spike Jonze com o filme Her levou-me a pensar, ainda mais nessa questão.

A história começa a ser contada, através da personagem Theodore Twombly. Homem que vive de escrever cartas no lugar das pessoas que gostariam de expressar seus sentimentos , mas que preferem comprar as escritas pelos funcionários de uma empresa especializada nesse produto! São cartas cheias de gentilezas, gratidão, emoções e amor. Apesar disso, esse homem vive de maneira solitária e isolada. Tem poucos amigos e um casamento desfeito, ironicamente, por não conseguir expressar seus sentimentos ou lidar com  emoções mais complexas.
Nessa solidão tem como fonte de satisfação: vídeo game e sexo virtual , até comprar um sistema operacional que o faz sentir-se ouvido, compreendido, valorizado e nunca só. A disponibilidade desse sistema é incondicional e contínua. À medida que Theodore interage com Samantha (nome que o próprio SO se dá) acredita que está num relacionamento afetivo. Como consequência, recobra a alegria de viver. Sai com amigos e suas cartas ganham mais realidade. É capaz, cada vez mais, de expressar seus sentimentos com profundidade. Chega a ouvir de um colega que parece ter uma mulher dentro dele!
A vida segue em perfeita harmonia até o inadiável encontro com a mulher real, Catherine, sua ex-mulher.Marcam um almoço, para a assinatura do divórcio. Discutem e Catherine lhe mostra o absurdo de ter como namorada uma máquina, reforçando sua dificuldade em lidar com emoções e sentimentos reais. Theodore, apesar de buscar argumentos para se justificar, começa sua reflexão... Questiona Samantha e cai, cada vez mais na realidade, ou seja, que ela é um sistema operacional  tão sofisticado que não só tira muita gente da solidão, como ambiciona ser um humano, uma pessoa!
Esse SO é retirado do mercado, causando a sensação de desamparo em pessoas que, como Theodore, fizeram de seu SO a mais importante e, praticamente, exclusiva companhia.
Depois de muito refletir,Theodore  está mais consciente de si, da importância de ser quem é e de estar, de fato, nas relações. Finalmente, aceita o fim da historia que viveu com a mulher real, aceita o divórcio e lhe escreve uma carta. Expressa-se de modo maduro, profundo e espontâneo sobre a  história que viveram. Finalmente, acredita ter aprendido o que é o amor. Carta fechada.
Confiante, contempla novos horizontes  para sua vida afetiva.


A tecnologia proporciona recursos que parecem substituir as relações humanas de tão complexos. Ao mesmo tempo, apresenta-se tão simples e completa que nos seduz. De fato, uma ferramenta fascinante!
Entende-la e utilizá-la como tal, pode nos levar a enriquecimento, a crescimento pessoal, como foi, inicialmente, o caso de Theodore Twombly, de Spike Jonze. As relações interpessoais só tem a ganhar, desde que o homem seja sujeito desse uso e não a máquina.

domingo, 21 de setembro de 2014

O tédio e a consciência


A independência necessária para ser quem se é, ou seja, para seguir até aonde o impulso de autorrealização nos levar, trará desassossegos... Manter o equilíbrio entre ser e estar com tantas outras individualidades e e em meio a tantas realidades é o desafio que pode nos poupar do tédio indigno...Afinal, está aí um grande desafio. 

Um interior trabalhado para suportar a tensão provocada por conflitos é o que pode, também, acomodar com dignidade os momentos de tédio que, certamente, sobrevirão a todos em maior ou menor grau... Com maior ou menor nível de consciência... 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

PUELLA - A ETERNA MENINA


Texto adaptado por Maria Idalina O. de A. Germann


“Os pais da Bela Adormecida e da Cinderela por conta de suas atitudes frente ao feminino, levaram suas filhas a sofrer e a serem relegadas a posições subalternas e inativas. Bela Adormecida e Cinderela foram, afinal, salvas por príncipes da mesma forma que muitas mulheres que têm uma vida passiva (esse papel passivo é um dos caminhos para as mulheres que vivem o padrão da “eterna menina”) buscam segurança e proteção no casamento, apesar do sentimento de traição a si mesmas que a maioria delas vivencia.

Nossa cultura colaborou para essa traição.Durante muito tempo, as mulheres foram elogiadas pela anuência, adaptabilidade, delicadeza, jovial doçura, cooperação obediente com os maridos, que são a “forma de sua matéria”. As mulheres que tem suas vidas pautadas por esse padrão arquetípico de existência permaneceram simplesmente fixadas num nível infantil de desenvolvimento. Como Peter Pan preferem não amadurecer e são para sempre meninas. As vantagens dessa opção são compreensíveis. Pode ser confortável e excitante ser admirada como uma coisinha jovem e doce, depender de uma pessoa mais forte para tomar decisões importantes, deleitar-se com fantasias românticas sobre o Príncipe Encantado que consegue atravessar o espinheiro em torno da Bela Adormecida para salvá-la, flertar com as possibilidades, tornar-se a imagem de camelão do delírio de muitos homens e, até mesmo, esquivar-se diante da vida e passar os dias num mundo particular de faz-de-conta. Contudo, são inúmeras as desvantagens desse estilo de vida feminino! Em troca desses benefícios, a eterna menina muitas vezes abre mão de sua independência e acata uma vida passiva e dependente. Em vez de desenvolver-se nos planos pessoal e profissional, de elaborar sua própria identidade, de descobrir quem realmente é, através da difícil tarefa de autotransformação, a eterna menina em geral adquire sua identidade a partir das projeções feitas pelos outros sobre ela, entre as quais: a mulher fatal, a boa filha, a esposa, a anfitriã encantadora e, até mesmo, a heroína trágica. Em lugar de assumir a força e o poder do potencial que lhe é inerente e as responsabilidades que o acompanham, a eterna menina permanece frágil. Como uma boneca, permite aos outros fazerem de sua vida o que bem quiserem.

Daqui para frente, serão dados exemplos das variadas maneiras pelas quais esse tipo de existência pode ser manifestar. Não constituem “tipos” ou “categorias, nas quais, as mulheres possam ser encaixar com perfeição. Aliás, qualquer mulher pode viver vários desses estilos de vida em momentos e situações diferentes.


  1   A bonequinha engraçadinha


 Um estilo infantil freqüente é ter uma existência de “queridinha”.  Essa mulher se torna a imagem que seu homem espera dela, adaptando-se a suas fantasias sobre o feminino. Exteriormente, pode ate parecer segura e bem sucedida e, como uma princesa poderosa, ser alvo de inveja dos desejos secretos de muitas outras mulheres, porém, no íntimo, sua identidade é frágil e insegura, pois, na medida em que constantemente posa para os outros, não sabe de fato como é.
Quantas mulheres levaram quase a vida toda como esposas desse modo, sendo as companheiras e anfitriãs encantadoras para seus maridos, apenas para deparar com um divórcio, na meia idade, destituídas de força pessoal e crescimento?
Na peça de Ibsen, Casa de bonecas, esse padrão é claramente retratado. Nora, a personagem principal, é tratada pelo marido como sua boneca, seu brinquedinho, sua “tímida queridinha”, sua “esquilinha”, sua “cotovia”, sua “pequena gastadeira”, sua “passarinha cantora”, sua “cabecinha de vento” e, assim por diante; ela a chama por todos os apelidos usados para animais de estimação. Do ponto de vista de seu marido, Nora deve ser protegida, pois é incapaz de ser pratica, de lidar com dinheiro, de tomar decisões, de ser responsável. Ele lhe diz, por exemplo:
“Apenas apóia-te em mim: vou aconselhar-te e orientar-te. Eu não seria um homem de verdade se esse desamparo feminino não te tornasse duplamente atraente a meus olhos... Serei tanto a tua vontade como tua consciência”.

O que seu marido não sabe é que Nora já tinha cuidado dele pedindo emprestado algum dinheiro, quando ele adoecera, para cobrir os gastos de uma viagem essencial à recuperação de sua saúde. Sabendo que Torvald, com sua “independência masculina”, seria orgulhoso demais para se humilhar e aceitar dela a quantia, Nora manteve esse gesto em segredo. A crise e o confronto para Nora surgem quando o agiota ameaça denunciar sua trama. No inicio, tenta fazer tudo para impedir que o marido saiba a verdade e se vale de todo o encanto de que é capaz como “esquilinha”. Aos poucos, vai percebendo que ao proceder dessa forma está, de fato, escondendo-se dele, ocultando não só seu erro como sua competência e força. Quanto mais clara fica essa percepção, mais ela se decide a deixar que tudo venha à tona. Quando seu marido descobre a verdade e sua imagem publica esta sendo questionada, ele fica furioso e tem a confirmação de que ela é uma irresponsável. Furioso ele declara:
“Compreendes o que fizeste?...Toda falta de princípios de teu pai veio para ti. Nenhuma religião, nenhuma moralidade, nenhum senso do dever...”
Ao ouvir tais palavras, Nora entende que não pode mais continuar fingindo um papel e que deve se defender e enfrentá-lo. Quando o agiota retira a ameaça de denuncia e o marido a perdoa, pois agora a situação não representa mais nada de serio para ele, ela tem a oportunidade de derrubar de vez seu papel de boneca. Porém, dá-se conta de que a mudança de atitude só aconteceu por força de circunstâncias externas, pois continua vendo-a como uma criança. Sendo assim, ela o enfrenta dizendo que, pela primeira vez em oito anos de casamento, teriam uma conversa séria. Seu texto é o seguinte:
“Fui profundamente enganada, Torvald, primeiro por meu pai e depois por ti. Tu nunca me amaste. Só pensaste que era agradável me amar. Quando morava com meu pai, ele me punha a par de suas opiniões a respeito de tudo e, por isso, eu tinha as mesmas opiniões que ele. E, quando eu discordava dele, escondia o que achava porque isso o teria desagradado. Ele me chamava de bonequinha e brincava comigo da mesma forma que eu brincava com as minhas bonecas. Quando vim morar contido foi apenas uma transferência das mãos de meu pai para as tuas. Tu sempre dispuseste tudo de acordo com as tuas preferências e, por isso, fiquei tendo os mesmos gostos que tu, ou melhor, fingi que sim. Não tenho muita certeza do que realmente é”.
Para Nora, essa percepção vem acompanhada da constatação de que ela não sabe ao certo quem é, porque sempre dependente de algum homem. Entende que deve ficar sozinha para se conhecer e compreender e que precisa aprender a formar seu próprio conjunto de valores e opiniões, em vez de aceitar as opiniões alheias, coletivas. Na peça, sua decisão final é deixar o marido e os filhos e lutar sozinha para se encontrar. Embora essa possa parecer uma solução radical (principalmente porque Ibsen escreveu a peça em 1879), mesmo agora as mulheres sentem muitas vezes a necessidade de deixar a família e partir em busca de si mesmas. Compreender o significado desse ato como a percepção de que não é suficiente existir em função dos desejos e projeções dos maridos e que é necessário descobrir quem se é a partir de si mesma – é o mais importante.
 Pode muito bem ser que o pai, o marido e os homens em geral tenham, em suas projeções, contribuído para essa visão inadequada do feminino, mas a reação a essas projeções com atos de culpabilização apenas perpetua as projeções de passividade e dependência. Existe uma sombra a ser enfrentada, pois por trás da esposa cordata, existe uma mulher forte que secretamente manipula o marido, como faz Nora. A tarefa é começara a articular os próprios valores e opiniões e a aceitar conscientemente a própria força, usando-a de forma criativa e às claras.


2- A MENINA DE VIDRO

Outra forma de existência infantil é ser tímida e frágil, alheia à vida, em geral, habitando num mundo de fantasia. Há muitas mulheres que passam a vida na esfera da fantasia, talvez, animadas pela presença de um “amante imaginário” ou pela força de um sonho místico, incapazes de entrar no mundo real e de se relacionar com homens, prisioneiras da montanha de vidro de sua própria fantasia.
Em contraste com o padrão anterior, no qual o pai se projetara demais sobre a filha e, para quem a tarefa era libertar-se dessas projeções paternas e maritais, este padrão implica um pai ausente. Nesses casos, não há relação com o masculino, não há nenhuma influencia ativa e consciente com o pai, nenhum relacionamento com o mundo exterior. A mãe pode até fazer isso a seu próprio modo, mas, muitas vezes, ela mesma está vivendo na fantasia e não entende, de fato, a filha. Desprovida de projeções masculinas e de uma relação com o masculino, a “menina de vidro” cria seu próprio mundo, uma vida de fantasia que compensa seu isolamento em relação ao mundo exterior.
Muitas mulheres dão vida a esse padrão, mas é comum não nos inteirarmos dele porque tais pessoas se escondem. Quando, porem, seu universo de fantasia vem à luz, por um confronto com a realidade, é freqüente que apareçam na terapia.
Uma forma de se ocultar do mundo prático e extrovertido é retirar-se para o universo dos livros, em particular os de poesia e literatura fantástica.
Uma mulher que tinha crescido na pobreza, com um pai ausente e, cada centavo que conseguia ia para a sua coleção de animais de vidro e para os livros. Quando criança, sua historia predileta era a de uma órfã que tinha ido morar nos Alpes com seu avo cético e retirado. A protagonista era uma criança sociável e seu calor humano e espontaneidade incutiram vida e amor no avo e numa garotinha doente, presa ao leito. Ela era uma parte da personalidade dessa mulher, um lado que tinha sido menosprezado durante sua infância, mas que, finalmente, emergira a partir do momento em que sua autoconfiança aumentara. Por fim, ousou escrever para si mesma e, por esse meio, acabou sendo conhecida na esfera pública. Depois teve de enfrentar o circuito das palestras e passou por muitas fantasias de ansiedade do tipo “menina de vidro”, nas quais desmaiava na frente da platéia. Toda vez que fazia isso era um trauma, mas ela corria o risco e, dessa forma, pode trazer seu mundo interior a uma vinculação com o exterior, partilhando então sua visão particular da vida com outras pessoas.

3- A DESPREOCUPADA:  DON JUAN DE SAIA

A mulher despreocupada é outro padrão infantil. Essa menina vive de impulsos, tão despreocupada quanto o vento, exuberante. Parece ser espontânea e solta, levando uma vida louca excitante, ao sabor do momento, desfrutando o que estiver acontecendo.
A dificuldade para esse tipo de puella é que tenta viver por completo no domínio das possibilidades, ignorando as limitações e as realidades dos outros e de si mesma. O que ela precisa fazer, porém, é aceitar os limites e comprometer-se consigo mesma e com algo fora de si. Aceitar o paradoxo da finitude e da possibilidade é o caminho de sua resolução. Criar, através das varias formas artísticas, é uma alternativa para atingir essa finalidade. Por exemplo, Anaïs Nin transformou a existência de puella que havia em seu interior escrevendo, dando forma a suas intuições, integrando, assim, possibilidade e realidade.
Buscou psicoterapia uma mulher que estava apaixonada por um homem que também a amava, no entanto, ele lhe havia dito que, enquanto ela não “se acalmasse” e formasse uma noção de seu valor como pessoa, ele não poderia considerá-la uma verdadeira parceira. Sua finalidade era definir-se em vez de dispersar-se nos relacionamentos, como costuma lhe acontecer. Seu padrão era ir de homem em homem, e ela sentia que seu valor vinha do numero de amantes com quem dormia e também de suas diferentes nacionalidades. Era muito espontânea e freqüentemente ia para cama com quem mal acabara de conhecer na rua. Quando lhe pedia que anotasse seus sonhos e os trouxesse à consulta, esquecia de fazê-lo ou os anotava em antigas contas já pagas, em papel higiênico, em qualquer coisa que estivesse à mão no momento. No plano de seu desenvolvimento, sua mãe a queria “virgem” e seu pai não estivera emocionalmente próximo. Primeiro, tornou-se a queridinha da mamãe, a “boa menina”; depois, revoltou-se e encarnou o lado desconhecido dela. Em certo momento, teve um sonho no qual era um cachorrinho poodle frances, o animal predileto de sua mãe, e esta lhe oferecia algo especial para comer, recheado de veneno. Primeiro ela engole, depois vomita. Foi assim que se passou com ela em nível psicológico. Ela queria ter sido o animalzinho de estimação de sua mãe, mas vomitou o petisco “virgem”. Disso resultou sua virada de mesa completa e sua atitude de dormir com todos que pudesse. Seu pai não estava próximo o suficiente para lhe transmitir uma noção de seu próprio valor feminino. A tarefa que cabia a essa mulher consistia em aceitar que estava se revoltando contra a mãe através dessa vida de borboleta despreocupada, mas que isso, por outro lado, a impedia de relacionar-se com o homem a quem amava.

4. A DESAJUSTADA

Outro modelo de puella é a mulher que, em virtude de vergonha por causa de seu pai, é rejeitada pela sociedade e/ou se revolta contra ela. Essa mulher pode estar identificada com seu pai e permanecer ligada a ele de modo positivo; assim, quando a sociedade o rejeita, ela rejeita a sociedade.
Na família dessas mulheres é comum a mãe viver um papel critico, tornando-se a voz da consciência do “mau pai”.  Se a filha manifesta algum tipo de comportamento semelhante ao do pai, a mãe irá castigá-la, ameaçando-a com as mesmas fatalidades que se abateram sobre o destino do pai. A menos que a filha siga o “bom conselho” da mãe, ela deverá revoltar-se e reeditar o padrão paterno, repetindo seu lado autodestrutivo.
Dostoiévski descreveu esse padrão em muitas de suas personagens femininas cujos pais eram viciados de algum tipo. Parece-me que essas puellas em geral têm um “homem subterrâneo” na linha de Dostoiévski vivendo em seu íntimo, que se recusa com cinismo a assumir a possibilidade de ajudar e de mudar tanto a si quanto a sociedade que o rejeitou.
É provável que essas mulheres desperdicem suas vidas numa passividade inerte, entrando talvez no caminho do álcool ou do vício das drogas, da prostituição, alimentando fantasias suicidas ou talvez entrando em relacionamentos amorosos doentios. É possível ainda que se casem com homens semelhantes ao pai e que se desgastem com depressões e masoquismo diante de uma vida e de um relacionamento desprovidos de realização. De algum modo, como Perséfone, essas mulheres foram levadas ao escuro mundo subterrâneo de Plutão e lá permanecem com pouca ou nenhuma força de ego e desenvolvimento de animus que as possa ajudar.

Arthur Miller descreveu esse tipo de existência de puella em sua peça "Depois da queda", ao compor a personagem Maggie, em parte com base em sua ex-esposa, Marilyn Monroe.

O paradoxo, na raiz desse padrão puella, é que apesar de toda a real humilhação, vergonha e rejeição de sua historia passada, de que resulta sua autoidentificação com a vítima e com a desvalorização, o caminho da redenção está na luta contra essa identificação, ao invés de viver compulsivamente a vergonha e a repetição do padrão de rejeição. A tarefa é transformar a atitude de esperança, passando a afirmar conscientemente a si e a vida.

Um exemplo dessa atitude transformadora está no filme de Fellini "Noites de Cabíria."

Certa paciente teve um sonho, no qual, a figura do avo lhe dizia que sua terapeuta a havia diagnosticado como “aberração social”. Um de seus problemas era poder aceitar-se e desistir do papel de menininha boazinha que havia desempenhado na infância, principalmente tendo sido a queridinha de sua mãe. Estava implicado nessa questão o fato de que precisava confiar na capacidade de ser quem precisasse ser, independentemente dos julgamentos morais que sua terapeuta pudesse fazer. Precisava desidentificar-se da imagem negativa que tinha a seu próprio respeito, oriunda do comportamento de seu pai e do julgamento moral de sua mãe.

5. O DESESPERO DA PUELLA

A maioria das mulheres é bem capaz de reconher em si algumas das características dessas modalidades de existência pueril, podendo ocorrer que um desses padrões predomine em relação aos demais. Além disso, alguns dos padrões diferentes têm traços em comum. Por exemplo, o aspecto de rebeldia é muitas vezes uma parte da mulher despreocupada. A ênfase muito excessiva na conquista da atenção e da admiração dos homens pode aparecer tanto na bonequinha queridinha como na despreocupada e na desajustada. A ênfase na imaginação marca a puella tímida e frágil, assim como a despreocupada, embora esta concretize no mundo os vôos de sua imaginação, ao passo que a menina de vidro afasta-se do mundo para dentro de sua imaginação.
Um elemento comum a todos esses padrões pueris é o apego ou a uma inocência ou a uma culpa absolutizada que são os dois lados de uma mesma moeda, capaz de alimentar a dependência de outrem que reforce ou condene seus atos. Existe em todos a relutância em responsabilizar-se pela própria existência, a ausência de tomadas de decisões e de discriminações; é o outro que se incumbe disso. O relacionamento com os limites e as fronteiras também é precário: ou há a recusa em aceitá-los (a despreocupada e a desajustada), ou há a “ilimitada” aceitação (por exemplo, no caso da tímida reclusa e da bonequinha queridinha).
A puella conduz sua vida no âmbito das possibilidades e evita a realidade dos compromissos.  Permanecer no possível conduz a uma de duas direções principais: para os desejos e os anseios ou para a fantasia melancólica. A bonequinha queridinha e a despreocupada se inclinam na primeira direção, enquanto a menininha de vidro e a desajustada vão na segunda. Em todos os casos, porem, resulta a incapacidade de agir. Para que a ação seja verdadeira, é preciso a síntese e a integração tanto da possibilidade como da necessidade e é essa síntese, segundo Kierkegaard, que traduz um dos aspectos fundamentais da pessoalidade.

A questão central para a puella é afirmar-se como a pessoa que realmente é, já que sua tendência é conquistar sua identidade (ou falta de identidade) junto aos outros. Para entrar em contato com o mistério de sua alma, isto é, para “ser misteriosa” é necessário que discrimine, com objetividade, entre suas potencialidades e verdadeiras limitações, tornando, então, concreta a síntese resultante dessa percepção. A puella precisa aceitar seu potencial de força e desenvolve-lo a fim de efetuar a concretização do mesmo; precisa ,ainda,comprometer-se com seu ser misterioso e singular.
A base do problema pueril está no que Kierkegaard chama de “O desespero-fraqueza: o desespero de não desejar ser si mesma”. A adaptação de ego da puella foi, precisamente, ser fraca: ser passiva e desempenhar o papel desejado para ela pelos outros. Assim que se torna consciente de seu padrão, a puella percebe que está encarcerada, que foi barrada precocemente em seu desenvolvimento. Também, percebe que tem algo com que contribuir para o mundo, embora ainda não haja encontrado uma forma de fazê-lo. E como isso é frustrante: saber que se tem algo a contribuir e não ser capaz de fazê-lo! Esse é o desespero-fraqueza que pode levar a um recuso para dentro de si mesma, à adaptação ou à revolta. Mas pode, também, propiciar a transformação.

RUMO À TRANSFORMAÇÃO
O primeiro passo no caminho da transformação desse padrão é tomar consciência de que se está fora de contato com o Self, isto é, com as dimensões mais profundas existentes no seu íntimo. Com um poder maior do que a força dos impulsos do ego. Denominar o padrão dá à puella a perspectiva, a distancia de que necessita e o entendimento das razões pelas quais permaneceu fixada em seu desenvolvimento.

Denominar é um processo ativo.

Essa conscientização vem acompanhada de sofrimento e do segundo e necessário passo: o de aceitar esse sofrimento. Parte do problema da puella é sentir a própria fraqueza e dependência, é se ver como vítima. Identificada como vítima, recusa a responsabilidade e age como mocinha inocente. Por isso, a verdadeira compreensão da fraqueza e a aceitação do sofrimento envolvem o confronto com a sombra, com aquela parte da pessoa que é negada. A sombra da puella está vinculada ao poder, que ela não aceitou de fato, com responsabilidade. Muitas vezes, esse poder é assumido por uma figura na psique, um velho pervertido,figura mesquinha e de má índole que precisa, também, ser enfrentada. Parte da aceitação do sofrimento implica um combate com essa figura. Faz parte da aceitação do sofrimento perceber que esteve nas mãos desse velho perverso.
Por fim, o último passo: a percepção de que, apesar de nossa fraqueza, temos em nosso interior uma força, um acesso a esse poder superior aos impulsos do ego. Ou seja, o passo final é aceitar a força do Self e essa aceitação implica conscientização e escolha, escolha essa que não deve ser confundida com a força de vontade do ego. Trata-se da escolha que acontece nos fundamentos mesmos de nosso ser, em favor de aceitar o poder do Self. Para Kierkegaard, esse é em última instancia um ato de fé a exigir toda a força da receptividade.

A questão final é aceitar a força que existe no interior da própria pessoa e apoderar-se dela, em vez de desistir e seguir os padrões pueris habituais de fuga, afastamento, adaptação ou rebelião.

Onde é que a puella encontra pela primeira vez a revelação de que há uma força em seu interior? Tal revelação pode vir-lhe numa variedade de modos. As oportunidades estão por toda parte. Portanto, o segredo é estar atenta e aberta a elas.

Em ultima análise o que se exige de uma puella em seu processo de autotransformação é que renuncie a seu apego à dependência, à inocência e à impotência infantis e que aceite a força que já está ali: que realmente se valorize. Se ela aceitar sua força e poder, sua inocência de menina irá se manifestar como elã jovial e feminino, como vigor, como espontaneidade e abertura a novas experiências que possibilitem um relacionamento criativo e produtivo.”





Bibliografia:
“A mulher ferida” – em busca de um relacionamento responsável entre homens e mulheres.

Leonard, Linda Schierse








    






domingo, 7 de julho de 2013

INSATISFAÇÃO – Pontos para reflexão


Texto adaptado da teoria e clinica psicanalítica de J.-D. Nasio
Por Maria Idalina O. de A. Germann



       A crença na impossibilidade de satisfação plena, até mesmo por, inconscientemente, teme-la pode levar ao descontentamento - mantido pela  criação da fantasia de um Outro, ora forte, ora fraco e doente, sempre desproporcional e decepcionante em relação às nossas expectativas. Por esse motivo, qualquer troca com o Outro conduz inexoravelmente à insatisfação.

       A realidade cotidiana é moldada pela fantasia e as pessoas próximas, amadas ou odiadas, desempenham um papel de um Outro portador de insatisfação. Há sempre a busca por algum sinal de poder humilhante no Outro que traz a infelicidade ou de sua impotência que, apesar de comover, não é possível de ser resolvida, remediada. Enfim, quer se trate do poder do outro ou da falha, seja com o Outro da fantasia ou da realidade – é sempre a insatisfação a guardiã do perigo absoluto da satisfação plena. Para se certificar do estado de insatisfação, há sempre a busca pelo poder do outro que subjuga ou sua impotência que atrai e desaponta.

     Outra maneira de manter-se como um ser insatisfeito é erotizar, sexualizar expressões que não sejam de natureza sexual. É apropriar-se, através das próprias fantasias de conteúdo sexual – e das quais não necessariamente se tem consciência -, de qualquer palavra ou qualquer silencio que perceba no outro ou que dirija ao outro. Sexualizar  o que não é sexual significa, aqui, transformar aquilo que  pouco ou nada altera numa situação maior em um sinal evocador e promissor de uma relação sexual.  Além de se  transformar qualquer gesto em indício de desejo do outro em ter uma relação sexual, há também a criação de sinais sexuais que levam o outro a crer que o que se deseja  é enveredar pelo caminho de um ato sexual consumado. Entretanto, no íntimo, o desejo é que esse ato fracasse ,não se realize. Apegando-se ao desejo inconsciente da não realização do ato pode-se permanecer insatisfeito.


      O esforço para sexualizar a realidade exige uma capacidade de ser maleável a ponto de se estirar, sem descontinuidade, desde o ponto mais íntimo do próprio ser até a borda mais externa do mundo, tornando incerta a fronteira que separa os objetos internos dos objetos externos.


     Essa plasticidade singular, no entanto, instala a pessoa numa realidade confusa, meio real e meio fantasiada, onde se desenrola o jogo cruel e doloroso das identificações múltiplas e contraditórias com diversos personagens, e ao preço de permanecer estranho a sua própria identidade de ser e, mais particularmente, a sua identidade de ser sexuado.

     Por isso, é possível haver tanto uma identificação com o homem, com a mulher ou com o ponto de fratura de um casal, isto é, é possível encarnar a própria insatisfação que aflige um casal.


     Nesse contexto é muito frequente constatar o quanto pode ser adotada, com surpreendente desenvoltura, tanto o papel do homem quanto o da mulher, mas, principalmente, o papel do terceiro personagem através de quem o conflito surge ou, ao contrário, graças a quem o conflito é aplacado. Quer o conflito seja desencadeado ou eliminado, seja homem ou mulher – o que invariavelmente acontece é  a pessoa ocupar o papel de excluído. E deste fato, ou seja, de ser rejeitado para o lugar de excluído que se explica a tristeza que acompanha a insatisfação. E é nesses momentos de tristeza e depressão que se pode constatar a identificação da pessoa com o sofrimento próprio da insatisfação; ficando nela a impossibilidade de se dizer homem ou mulher, de afirmar, muito simplesmente, a identidade de seu sexo. A tristeza, aqui, corresponde ao vazio e à incerteza de uma identidade sexuada.

           A maneira com que nos defendemos de uma dor intolerável pode muitas vezes ser inadequada. Defendemo-nos mal porque, para aplacar o caráter intolerável de uma dor, não tivemos outro recurso senão transformá-la em sofrimento neurótico (sintomas). O que fazemos é substituir um sofrimento inconsciente por um consciente, suportável e, em última instancia redutível. Podemos sofrer segundo o modo obsessivo - sofrimento do pensar. Como fóbico: sofrimento com o mundo que nos cerca, projetando o gozo inconsciente e intolerável e cristalizando-o num elemento do ambiente externo - o objeto ameaçador da fobia.Por último, sofrer segundo o modo  histérico - sofrer conscientemente no corpo, ou seja, converter o gozo inconsciente e intolerável num sofrimento corporal. Numa palavra, o gozo intolerável  converte-se em distúrbios do corpo na histeria, desloca-se para um desarranjo do pensamento na obsessão, e expulsa-se, voltando imediatamente como um perigo externo, na fobia.




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NARCISISMO - Um olhar à luz do Mito de Narciso.


Atualmente, o narcisismo é tido como sinônimo de autoestima elevada entre um número cada vez maior de pessoas. Essa percepção fez com que buscasse no mito de Narciso uma compreensão melhor desse fenômeno.

Ovídio, poeta romano, que viveu entre 43 aC e 17 ou 18 dC, conta que Narciso aos dezesseis, dezessete anos podia ser tomado quer como garoto, quer como homem. Muitos jovens e muitas donzelas procuraram o seu amor; mas, naquela esbelta forma, era tão frio o orgulho que não houve jovem ou donzela que lhe tocasse o coração. Uma dessas jovens rejeitadas pede aos céus que ele possa amar a si mesmo e não obter aquilo que ama. A deusa Nêmesis ouve e atende essa justa prece.

Narciso, exausto pela caça e pelo calor é atraído certa vez para perto de uma fonte de água límpida, cuja superfície perfeita, jamais havia sido maculada por ave, besta ou galho caído. Enquanto tenta aplacar sua sede, outra sede o acomete e, enquanto bebe, enamora-se pela visão da bela forma que vê. Qual seria hoje essa superfície que reflete a imagem que gostaríamos de ver refletida. Essa imagem esculpida, trabalhada, produzida de forma a “causar”?

Que imagem Narciso vê refletida? Por quem se enamora? Ele enamora-se da visão, da bela forma que vê. Ele ama uma esperança sem substância e cre ser substância o que não passa de sombra. Estendido no solo observa seus próprios olhos, estrelas gêmeas... E seus cabelos? Dignos de Baco, de Apolo...Observa suas bem talhadas faces, seu pescoço de marfim, a gloriosa beleza de seu rosto, o rosado combinado à brancura da neve: enfim, tudo aquilo que nele provoca admiração é por ele mesmo admirado. Ele não sabe o que vê, mas arde de amor por essa imagem - a mesma ilusão que zomba dos seus olhos e o enfeitiça.

Não é isso que observamos cada vez mais: pessoas amando a imagem que veem refletida em espelhos ou nos olhares que provocam?

Nessa parte do mito, Narciso é questionado: Ó jovem, apaixonadamente tolo, por que buscas, debalde, abraçar uma imagem fluida? Aquilo que procuras não está em parte alguma; mas, dai as costas e o objeto de seu amor já não existirá.

A angústia de Narciso assemelha-se à das pessoas que ao não se sentirem admiradas, desejadas e ao não se verem refletidas pelo outro como imagem excepcional e exclusiva, acreditam-se vazias, sem importância. Muitas descrevem uma sensação de não existência, vivenciando assim, uma grande angustia existencial.

Continua Narciso “O próprio [objeto do meu amor] está ávido por ser abraçado. Pois, sempre que estendo meus lábios na direção da luminosa onda, ele, com a face levantada tenta chegar com seus lábios aos meus. Diríeis que ele pode ser tocado – tão frágil é a barreira que nos separa os corações apaixonados. Quem quer que sejas, vem até mim! Por que, jovem ímpar, me escapas? ...
 – Oh! Eu sou ele! Eu o senti, conheço agora minha própria imagem. Ardo de amor por mim mesmo; eu mesmo provoco chamas e sofro o seu efeito. Que devo fazer? Devo cortejar ou ser cortejado? E, afinal, para que faze-lo? O que eu desejo, eu tenho; a própria abundância da minha riqueza me faz mendigo...”

Narciso, desesperado, golpeia com suas próprias mãos o peito nu...

Segue o mito: Ele deitou sua torturada cabeça na verde grama e a morte fechou os olhos que se maravilharam à visão da beleza do seu senhor. E mesmo quando foi recebido nas moradas infernais, continuou a fitar sua própria imagem na fonte do Estige...

O corpo de Narciso não foi encontrado para ser colocado num ataúde. Em seu lugar, encontraram uma flor, cujo centro amarelo estava cercado de pétalas brancas.


O mito de Narciso revela um importante aspecto do narcisismo: a busca na realidade externa de si mesmo , como se o Si-mesmo (o Self) estivesse fora, em alguma parte ou em alguém, que não em si: “Aquilo que desejo, tenho.”


Estar separado de si, ou seja, não conhecer a si mesmo ou, ainda, não se apropriar de si mesmo, são condições que têm levado cada vez mais pessoas a essa busca que o mito de Narciso tão bem descreve. Se Narciso pudesse sentir sua existência, seu valor, sua maneira de ser, independentemente, dessa imagem fluida que lhe é refletida, como uma esperança sem substância, não teria encontrado na morte a solução para seus problemas.

 A morte no narcisismo é a sensação de vazio que angustia aquele que não se vê refletido. Lembrando mais uma vez: “O que procuras não está em parte alguma; dai as costas e o objeto de seu amor já não existirá.”

Sem dúvida, pessoas conscientes de si e de seu valor, são mais maduras e capazes de relacionamentos saudáveis. Escolhem com maior facilidade aquilo que as satisfaz, aquilo que vem ao encontro de sua maneira de ser, sentir e pensar a própria vida e a realidade que as cerca. 

Bibliografia:
Schwartz- Salant, Nathan
Narcisismo e Transformação do Caráter - A Psicologia das Desordens do Cárater Narcisista
Ed. Cultrix

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Reencontrar a criança interior - pontos para reflexão


"Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção, educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa". C.G. Jung

     ... Existe dentro de nós uma força criativa que nos acena, forçando-nos a sair de nossa própria natureza essencial e a deixar o mundo antigo e familiar, dando um passo adiante para ingressar no novo. Quando uma coisa deixa de existir, a criança é constelada como possibilidade interior e ingressa na nossa esfera repleta de uma ingênua vitalidade.

        A criança interior tem a mente de aprendiz. Representa a espontaneidade e o anseio profundo da alma humana por expandir-se, crescer e investigar vastos e ilimitados territórios.

·        Às vezes, essa criança interior faz exigências muito intensas, apresentando-se por meio de emoções como: ansiedade, depressão, raiva, impotência ou em sintomas físicos. Às vezes, desencadeia em nós frágeis e sutis lampejos de inspiração – uma idéia repentina, um sonho, uma fantasia ou a sensação de desejar com ardor algo rejuvenescedor. A força vital e natural deste arquétipo quer o nosso reconhecimento e não pode ser ignorada sem acarretar com isso sérias conseqüências...

·        Somente quando dou espaço para a voz de minha criança interior é que me sinto genuína(o) e criativa(o). A voz da criança é essencial ao processo de tornar-se único.

·        Somos arrastados, muitas vezes, para a totalidade na vida diária, mas ao não encontrarmos significado para o que nos acontece, deixamos de compreender os ritos de iniciação. Não tendo noção do que seja um rito de passagem (a partida da pessoa amada com outro (a), uma doença terminal, a morte do parceiro(a), o dar tudo errado, sem motivo aparente,etc.), sentimo-nos vítimas, impotentes para resistir ao Destino arrebatador. O sofrimento sem sentido faz com que  procuremos escapar usando comida, álcool, drogas, sexo. Ou, então, afrontando Deus com a pergunta: “Por que eu?”

·        Através de fracassos, sintomas, sentimentos de inferioridade e problemas intensos, somos impelidos à força a renunciar aos apegos existenciais que se tornaram redundantes. A possibilidade do renascimento constela-se com a perda do que aconteceu antes. Entretanto, as pessoas apegam-se ao que lhes é familiar, recusando-se a fazer os sacrifícios necessários, e resistem ao próprio crescimento.

·        O grito que vem do corpo esquecido, o grito que se manifesta num sintoma, possivelmente, seja o grito da alma que não consegue encontrar qualquer outro caminho para ser ouvido.

·        Se vivermos por trás de uma mascara nossa vida inteira, cedo ou tarde – se tivermos sorte – essa mascara será esmagada. Então será preciso que nos olhemos no espelho, enxergando nossa própria realidade. Talvez fiquemos apavorados. Talvez estejamos olhando para a nossa criança interior que suplica que lhe demos atenção. Essa criança pode ter sido esquecida antes mesmo de sairmos do útero, no próprio momento do parto, ou quando começamos a fazer as coisas para agradar aos nossos pais e aprendemos a manejar nossas melhores atuações para ganhar aceitação. À medida que a vida avança, continuamos a abandonar a nossa criança procurando agradar aos outros – professores, patrões, amigos e parceiros, até mesmo, os analistas. Essa criança, que é a nossa própria alma, implora, por baixo do burburinho da nossa vida, muitas vezes imersa no cerne mesmo do nosso pior complexo, que digamos: “Você não está sozinha. Eu amo você”.

·        A criança do nosso mundo interno sabe como ser, ao passo que o resto de nossa personalidade sabe como fazer e como agir. Ao trabalharmos com esses padrões, temos a oportunidade de aprender como ser com eles. Quando lidamos com a criança interior, o lema é: “Não há para onde ir e não há o que fazer”.

·        À medida que nos tornamos mais cientes da criança interior, o ego consciente irá, aos poucos, fazendo às vezes do pai e da mãe de nossa criança. Podemos então assumir responsabilidade pelo uso da energia da criança interior em nossa vida, oferecendo-lhe a proteção apropriada, quando necessário.

·        Como é essa criança? A sua qualidade mais notória é a capacidade de tornar-se profundamente íntima de outra pessoa. Com a perda da criança interior, perdemos uma grande parte da magia e do mistério de viver. Grande parte da destrutividade que expressamos uns para com os outros resulta da nossa falta de ligação com as nossas sensibilidades, nossos temores, nossa própria magia.

·        Aprender a linguagem dos sentimentos é fundamental para diminuirmos a distancia entre o ego e a criança interior, entre nós e os outros. “Sinto-me muito mal. Você realmente me magoou quando me disse isso.” “Quero me desculpar pelos comentários que fiz. Estava me sentindo ferido e com raiva, e lamento muito”.

·        Contudo, estar completamente com o outro também contém sua parcela de desconforto, ao lado do prazer.Entrar em contato com essa subpersonalidade pode-nos abrir para os mais embaraçosos sentimentos. No entanto, quando conscientizada essa subpersonalidade pode, muitas vezes, dizer-nos quem é confiável e quem não é. Ela costuma reconhecer as pessoas que repudiaram a própria criança vulnerável e que, portanto, podem ferir os outros, acidental ou deliberadamente. Os homens tem mais dificuldade ainda que as mulheres para concordar em ter contato com sua criança vulnerável, porque para eles é socialmente inaceitável serem vulneráveis. Suas crianças estão no esconderijo (dentro de armários, debaixo da pia da cozinha, em cavernas, no alto da casinha na arvore, no mato, num celeiro, no sótão...).

·        A criança vulnerável ajuda-nos a sair de situações dolorosas, se elas não podem ser modificadas. A criança vulnerável também nos arrancará de relacionamentos insatisfatórios, ou de ocupações profissionais não-grafificantes, assim que lhe dermos ouvidos. A criança vulnerável está energeticamente sintonizada – tem consciência de tudo que está acontecendo. As palavras não conseguem enganá-la nem por um instante. Conforme o outro fala, a criança sabe se existe alguma mudança, por mínima que seja, no elo energético entre ambos. Pode ter ocorrido a invasão de algum pensamento externo – você pode estar pensando que horas serão, pode derrepente ter percebido que está com fome – e a criança saberá que você recuou. Ela tem uma sensibilidade extraordinária e reage de pronto a todo abandono que sentir. Ela pode não saber por que esse recuo aconteceu, mas saberá quando tiver ocorrido.

·         Por exemplo, Frank estava numa relação com uma mulher mais jovem, que gostava dele, mas que não lhe deixava dúvidas quanto a não sentir por ele o amor necessário para levar sua relação a um casamento, que era a expectativa dele. Frank havia repudiado sua criança vulnerável de maneira tão completa que, a princípio, só pudemos falar com ela através do protetor/controlador.Contudo, este concordou em nos permitir consultar diretamente a criança.


 Facilitador: Por favor, você poderia dizer-nos como se sente quanto à relação do Frank com a Claire?

Criança: Não gosto nada disso. Fico magoado o tempo todo. Ele pensa que ela, com o tempo, vai acabar aprendendo a amá-lo, mas eu sei que ela não vai. Ela só está na história por causa das vantagens que obtém. Ele é um sujeito legal e faz coisas por ela, e assim ela continua a relação. Eu sei que ela não o ama, e isso me faz sentir mal. Mas ele não se importa com o que eu sinto.

Facilitador: Se você estivesse no comando da vida do Frank, o que faria?

Criança: Eu me afastaria dela. Quando ele está com ela eu me sinto sozinho. É muito pior do que não ter ninguém.

·        A criança vulnerável geralmente enxerga as questões emocionais claramente e oferece bons conselhos.

·        O desenvolvimento inteiro da personalidade ou dos eus primários tem por meta a proteção da vulnerabilidade da pessoa.

·        A inclusão da vulnerabilidade na relação é que permite a intimidade e é o repúdio da mesma que mais tarde destrói a intimidade. Quando repudiamos nossa criança vulnerável, não lhe damos a devida atenção.Uma vez que é imperativo para esta criança receber cuidado adequado, ela irá procurar em outra parte e formar elos com pessoas à nossa volta, das quais passará a exigir o cuidado que ora lhe falta. Esse processo não nos é consciente porque não estamos inteirados de nossa vulnerabilidade.

·        Tomar conta dessa criança interior por intermédio de um ego consciente oferece a sensação de força real. Isso representa o verdadeiro fortalecimento. Quando o ego está tento à criança vulnerável e cuida dela, não há mais necessidade de confiar apenas nos mecanismos de defesa que sempre proporcionaram a sensação de segurança. Tampouco existe a necessidade de confiar aos outros a responsabilidade por essa criança.

·        É importante saber que cada um de nós é essencialmente responsável por cuidar dessa criança vulnerável interior. Quando nos incumbimos adequadamente de nossa própria vulnerabilidade, estamos em condição de nos relacionarmos profunda e eficientemente com os outros.

·        Quando não damos a devida atenção à nossa própria criança vulnerável, ela buscará ser cuidada por outrem e formará ligações profundas e inconscientes com o lado paternal/maternal das outras pessoas. A idéia de que precisamos primeiro amar nossa própria criança interior, antes de conseguirmos relacionar-nos de maneira consciente, é semelhante ao antigo adágio segundo o qual devemos amar a nós mesmos antes de sermos capazes de amar alguém.

·        Como cuidar de nossa criança interior? O passo mais importante é reconhecer sua presença e desenvolver a percepção consciente dessa personalidade particular, com suas necessidades e reações. Uma vez que tomamos consciência da criança, de suas necessidades e sentimentos, estamos em posição de fazer algo a respeito.

·        A descoberta da criança interior é realmente a descoberta de um portal de acesso à alma. Uma espiritualidade não alicerçada na compreensão, experiência e valorização da criança interior pode com grande facilidade distanciar as pessoas de sua simples dimensão de humanidade. A criança interior nos mantem humanos. Ela nunca cresce, apenas se torna mais sensível e confiante à medida que vamos aprendendo a oferecer-lhe tempo, cuidados, assistência paterna/materna e o afeto protetor de que tanto é merecedora.



  



Bibliografia:

“O Reencontro da criança interior”

Jeremiah Abrams (Org.)

Ed. Cultix

São Paulo

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

EU - UM COMPLEXO

texto adaptado do livro de Verena Kast "Pais e filhas Mães e filhos"


O conceito de complexo é um dos conceitos centrais da psicologia de Jung. Está em relação direta com o desenvolvimento de uma pessoa – algo que o senso comum sugere.

Complexos são constelações especificas de lembranças, de experiências e fantasias condensadas, ordenadas em torno de um tema básico semelhante e carregadas com uma forte emoção da mesma qualidade. Quando alguma vivencia atual toca nesse tema ou nos afetos correspondentes, reagimos de maneira complexada, isto é, enxergamos e interpretamos a situação no sentido do complexo. Tornamo-nos emocionais e nos defendemos de modo estereotipado, ou seja, da mesma maneira como já fizemos antes.

Segundo Jung, os complexos têm um núcleo arquetípico, ou seja, eles se formam no ponto em que aborda algo indispensável à vida. São núcleos afetivos da personalidade do indivíduo, provocados por um embate doloroso ou significativo para ele, com uma demanda ou um acontecimento no meio ambiente, para o qual ele não está preparado.

Essa definição sugere que os complexos surgem da interação do bebe, da criança, com as pessoas de seu relacionamento. E a primeira infância é naturalmente uma situação marcante especialmente sensível para o surgimento dos complexos; contudo, eles podem surgir a qualquer momento enquanto vivemos. Enfim, nos complexos, estão retratadas as interações problemáticas e marcantes, como também, as histórias de relacionamento de nossa infância e de nossa vida posterior, juntamente, com as emoções correspondentes, com as formas de defesa dessas emoções e as expectativas daí provenientes como, por exemplo, o estilo de vida que se quer ter.

Assim quando, uma relação é difícil ou portadora de significado entre duas pessoas, em que emoções entram em jogo, um complexo é instalado. Todo evento semelhante é, então, interpretado de acordo com esse complexo, além de reforçá-lo. Nos complexos são reproduzidos episódios de nossa vida que se distinguem por uma emocionalidade especial.

Os pais, mães ou irmãos não são retratados nos complexos exatamente como eles eram; os complexos parecem ser, antes, uma complicada fusão de algo factualmente experienciado e algo fantasiado, de expectativas frustradas, etc. Contudo devemos constatar que, por meio de uma dissolução parcial dos complexos, mais recordações se libertam, tornando possível maior acesso a historias particulares da vida. Com isso o sentimento de vida se enriquece, ocupa-se melhor o complexo do eu, e se experimenta a auto-identidade também na continuidade. A história real é algo muito misterioso e impossível de ser realmente reconstruída.

Os complexos não nos marcam apenas, eles também são constelados, eles “entram em ação”. Por meio de uma experiência de relacionamento que lembra uma situação-complexo, por intermédio de um sonho ou de uma fantasia, o complexo se constela. Ou seja, nestes casos nós reagimos emocionalmente a situações atuais de modo impróprio, temos uma superreação. Reagimos não só à situação atual, mas sim a todas as situações de nossa vida que se assemelham de maneira tão fatal a essa situação. Também, pode-se dizer que em tais ocasiões sofremos de um distúrbio perceptivo porque percebemos de acordo com o complexo e ofuscamos o que não pertence ao episódio-complexo. Como conseqüência, temos uma estratégia estereotipada que, supostamente nos ajuda a lidar com a situação.

Os complexos são vistos como algo que inibe a pessoa e faz o individuo, nas situações que exigiriam dele uma resposta diferenciada, responder e reagir sempre da mesma maneira estereotipada; todavia, eles também contem germes de novas possibilidades de vida.

Do complexo do eu, Jung dizia que ele forma o “centro característico” de nossa psique, mas que é, apesar disso, apenas um complexo. “Os outros complexos associam-se mais ou menos ao complexo do eu e, desta maneira, tornam-se conscientes”. A tonalidade de sentimento do complexo do eu, o sentimento de si mesmo, Jung entende como expressão de todas as sensações corporais, mas também, como expressão de todos aqueles conteúdos de representação que atribuímos a nossa pessoa. As associações ligadas ao complexo do eu giram em torno do tema vital da identidade, do desenvolvimento da identidade e do sentimento de si mesmo, da autoconsciência que se vincula a isso. A base da nossa identidade é formada pelo sentimento de estar vivo; neste sentimento se enraíza a possibilidade de se impor como eu na vida, de fazer algo, enfim, de autorrealizar-se. No decorrer do desenvolvimento, a autodeterminação pertence cada vez mais à atividade do eu, em contraposição à determinação externa. O desligamento dos complexos não dependente apenas dos complexos e dos pais concretos, mas, de modo inteiramente decisivo, da atividade e vitalidade do eu.



O complexo do eu de uma pessoa deve desligar-se, de modo apropriado à idade, dos complexos materno e paterno, para que ela possa perceber suas tarefas de desenvolvimento e ter a sua disposição um complexo do eu coerente – um eu suficientemente forte – que lhe permita perceber as exigências da vida, lidar com dificuldades e conseguir certo grau de prazer e satisfação.

Na constelação de cada complexo materno ou paterno podem-se constituir diversos modos de comportamento que ajudam o filho a estabelecer com a mãe ou com os pais, ou na família como um todo, uma atmosfera suficientemente boa para preservá-la para si. Estes modos de comportamento conservam-se na vida futura. Caso nos tornemos conscientes deles, poderemos decidir se queremos ou não mante-los.

O desligamento do complexo é possível através da identificação e conscientização dos complexos e suas marcas. Esse desligamento é necessário para nos tornarmos pessoas mais independentes e mais capazes de estabelecer vínculos.

Há complexos com marcas positivas e negativas. Os complexos originalmente positivos são aqueles que tiveram uma influencia positiva sobre o sentimento de vida e, assim, sobre o desenvolvimento da identidade da pessoa e continuam a influenciar positivamente, caso ocorra um desligamento na idade apropriada.

O complexo materno originalmente positivo proporciona a uma criança o sentimento de um incontestável direito à existência, o sentimento de ser interessante e de ter parte em um mundo que oferece tudo de que alguém necessita – e um pouco mais. A partir disso, esse eu pode entrar em contato, de modo confiante, com um “outro”.

O corpo é a base do complexo do eu. Sobre a base de um complexo materno positivo, as necessidades corporais são vivenciadas como algo “normal” e também podem ser normalmente satisfeitas. Há uma alegria natural com o corpo, com a vitalidade, a comida, a sexualidade. O corpo pode expressar emoções e é capaz de aceitar e receber essas manifestações provenientes também de outras pessoas.

Esse complexo do eu assim consolidado pode romper seus limites na experiência corporal com outra pessoa, sem medo de nisso se perder. Também, é possível compartilhar intimidade psíquica, além da corporal. Desse modo, os outros são compreendidos de forma fundamental, assim como, geralmente se é compreendido. Os outros contribuem para nosso próprio bem estar psíquico, como podemos contribuir para o bem estar dos outros.

Uma pessoa que pode contar com o interesse e a compreensão do outro e experimenta certa plenitude de amor, cuidado e segurança desenvolverá uma saudável atividade do eu.

A idealização das figuras dos pais deve ser superada por volta dos vinte anos. Nessa fase, os complexos materno e paterno tornam-se na sua maioria conscientes. Cada marca de complexo permite determinados passos de desligamento e inibe outros. Vai depender da força de cada um, do impulso de autonomia que os jovens, a despeito das marcas dos complexos, possam apresentar.

O desligamento é um compromisso entre aquilo que uma pessoa deseja para si e para a própria vida e o que o meio ambiente (pai, mãe, professores, grupo social, etc) deseja para ela. Fases nítidas de desligamento, como a adolescência, estão relacionadas a uma disposição de ruptura, são fases de profunda mudança. O complexo do eu está se reestruturando, ou seja, há um sentimento instável de autoestima.

De modo geral, pode-se dizer que, na fase de desligamento, as pessoas que não são propriamente o pai ou a mãe, mas nas quais é possível projetar algo de paternal ou maternal, desempenham um papel significativo, assim como as imagens de divindades paternas e maternas e seus respectivos programas de vida.