Muitas vezes encontramos nos processos psicoterapêuticos
temas semelhantes às maldições, aos feitiços dos contos de fadas. Como é
frequente neles, alguém é condenado a assumir uma forma animal ou a ser
horrível, repulsivo. Há casos, também, em que alguém é forçado a cometer
maldades e a ser destrutivo – sem que deseje agir dessa maneira.
Ódio, raiva, inveja, vingança são sentimentos que mais
facilmente encontramos nesses “estados de maldição”.
A raiva já é um sentimento difícil de ser aceito, de ser
administrado. Podemos imaginar a dificuldade que é sentir ira, ódio. Contê-los. Controlá-los.
Apesar do reconhecimento das mágoas, de que a pessoa foi ferida, a raiva, o ódio são, frequentemente, negados e, por isso mesmo, manifestados de maneira muito mais destrutiva.
Os vícios, as compulsões, muitas
doenças psicossomáticas, o excessivo sentimento de culpa; enfim, a falta de
cuidado para consigo, a depressão, a ideação suicida podem ser sinais de que a
raiva está sendo engolida. Sinais de que a raiva está sendo autodirigida.
Quando não, transferida, para que outros a expressem pela pessoa.
Onde há maldição – há redenção!
A ira pode ser uma força essencial para redimir complexos e
transformar a essência ferida. Se a pessoa puder aprender a se relacionar com a
própria raiva poderá ter revelados aspectos dessa essência.
Na falta de modelo
de enfrentamento dessa força é necessário trazê-la à tona, apesar do medo dessa energia tão intensa.
Fogo se controla com fogo! Por exemplo, muitas vezes, ateia-se fogo, para deter o fogo destrutivo de incêndios em florestas.
Assim, a ira pode gerar ações de assertividade que estipulam limites.
No conto de fadas dos Irmãos Grimm “O rei sapo”, a princesa
encontra sua própria força e o vigor de sua natureza, antes dados aos outros, ao
encarar sua ira.
Mesmo sentindo repugnância pelo sapo, obedece a seu pai no
cumprimento da promessa feita. O sapo trouxe a bola de ouro, que ela havia deixado cair no fundo de um poço e ela teria que cuidar,
alimentar e o colocá-lo em sua própria cama. A princesa não consegue cumprir essa última parte, deixando-o no chão. O sapo exige que cumpra sua
promessa na íntegra. Nesse momento, ela se enfurece e o atira com toda
força na parede. No mesmo instante, ele se transforma em príncipe – sua
verdadeira natureza, antes de ter sido vítima de um feitiço. A raiva foi a
resposta apropriada: libertou o príncipe de sua forma pervertida de sapo.
Em “O rei sapo” a transformação se dá porque a princesa,
finalmente, assume a responsabilidade por seus sentimentos femininos e os
defende. A ira pode ser o início da conscientização.
Não há dúvida, portanto, de que para transformar ira em energia criativa
é preciso que as pessoas tenham acesso a ela.
É comum que a ira tenha raízes na sensação de abandono, de
traição, de rejeição e de violência física e sexual. Situações, muitas vezes, vivenciadas nas primeiras relações da vida de uma pessoa.
Também, não é surpresa que ela reapareça nos relacionamentos atuais e que venha misturada a
sentimentos de inveja e vingança - suficientemente fortes - para matar qualquer
relação e, também, para destruir a capacidade de amor-próprio dessas mesmas pessoas.
A tendência
suicida de Psique mostra como ela está possuída por essa agressividade mortífera. No mito Eros e Psique ficamos sabendo que ela perdeu a relação com seu amante Eros. Para recuperá-lo
precisa realizar as tarefas que são dadas pela invejosa mãe dele, Afrodite.
Psique se desespera porque as tarefas lhe parecem
impossíveis. Não acredita que possa realizar a primeira delas: separar cada tipo
de grão daquela imensa montanha deles, até o dia seguinte. Deita-se e dorme. Na
manhã seguinte encontra os grãos separados e agrupados. E fica surpresa com o resultado.
Contou, para realizar
essa primeira tarefa, com a ajuda de formigas, ou seja, com aspectos dela mesma como: disciplina,
determinação e trabalho.
Durante o processo psicoterapêutico esses aspectos podem ser desenvolvidos e/ou fortalecidos para que a pessoa comece a separar o que é próprio, do que é do
outro; as próprias expectativas, das expectativas dos outros; quanto da ira realmente
pertence a si, quanto é uma ira não-resolvida pelo pai ou pela mãe, ou mesmo
pela cultura.
Na segunda tarefa, ela tem que enfrentar carneiros
selvagens, cuja fúria é desatinada e assassina, para tirar fios de sua lã
dourada. Não vê como fazer isso. Vai até um rio para cometer suicídio. Lá ouve
uma voz que lhe diz como cumprir a tarefa:
"Ao cair do sol os carneiros adormecem à beira do rio e deixam nos
galhos dos arvoredos, pelos quais passaram, os fios de que precisa. Esgueire-se
como junco, pela margem e vá até os arvoredos. Sacuda suas folhas, para
que consiga os fios de lã pedidos por Afrodite."
Nessa tarefa foi vital para Psique aprender a ouvir sua voz interior. Com paciência e
sabedoria, pode reconhecer o momento certo de agir, de entrar em contato com
essa energia, sem ser destruída por ela.
A terceira tarefa, também, parece ser impossível a Psique. Diante da dificuldade a ser enfrentada, ouve
vozes sugerindo que desista do que não pode fazer! Você não vai conseguir!
No alto de uma montanha está a nascente
das águas que correm para o rio do mundo inferior. É dessa nascente que
Afrodite quer que Psique traga água limpa em um vaso de cristal. Zeus lhe envia uma águia, que pega o vaso de cristal e voa com ele até o alto da montanha,
enchendo-o com habilidade. Psique recebe o vaso com a água e o entrega a
Afrodite.
Ganhar distância dos problemas para deles tirar só o
necessário foi a habilidade que Psique desenvolveu, através dessa tarefa.
Foi
(e É) necessário unir consciente e inconsciente para conter a energia da ira e lhe dar
forma, ou seja, para não deixar que se dissipe numa ira amorfa.
A aceitação e a transformação
da ira podem liberar e revelar a força e o espírito das pessoas "enfeitiçadas", redimindo-as
para viverem a qualidade das pessoas que são, em suas essências genuínas.
Trechos do livro "A mulher ferida" de Linda S. Leonard. - Ed Saraiva - foram adaptados por mim na composição do texto acima.