terça-feira, 14 de julho de 2015

Que mundo queremos?




Nascemos, somos educados e formados para a independência e realização pessoal. Passamos pelo processo de aculturação, socialização e profissionalização, visando o sucesso e a felicidade. Somos influenciados e influenciamos. Algumas dessas influencias repercutem de tal modo em nossa vida que mal damos conta do que é de fato nosso ou, o que é trabalhado para que passe a ser vivido como crença, valores, ideais pessoais.

Houve tempo em que se creditava à autoridade, à lei poder que ditava o que era certo e errado, provocando conflitos entre o proibido e o prazer, numa sociedade que tinha claros valores, papéis, comportamentos. Em um mundo "pai orientado", usando uma expressão de J.Forbes, os conflitos davam-se entre o proibido e o prazer. Era  para o superego que tínhamos que prestar contas. A culpa, o sentimento que tínhamos que reparar ou expiar. O ego era só um coadjuvante nessa luta entre o prazer e as interdições internas e externas.
Submetidos à essa autoridade introjetada sofríamos sim, mas tínhamos  melhor delineado o que era esperado de nós em cada fase de nossas vidas. O desafio de vir a ser Si-mesmo era mais possível.

As mudanças ocorridas nos anos 60, 70 acarretam outro tipo de sofrimento e configuram outro mundo.Com a queda da autoridade, da Lei achamos tudo natural, acreditamos que tudo podemos. Nascem os empreendedores de si mesmos: os proativos, autônomos e independentes. O ego, agora, passa a ser protagonista. Em menor escala o sentimento de culpa continua presente; entretanto, a vergonha de não ser tudo que o ego acredita ser possível, coloca o narcisismo no mercado como moeda de troca.
O sentimento de suficiência e insuficiência alimenta esse ideal de ego, que nunca cessa de sugar vida daqueles que disputam com "sangue nos olhos" um lugar nesse mundo, onde não há tempo para se dedicar ao que dá sentido e significado à própria vida; onde tudo é possível, porque "você merece"!

domingo, 19 de abril de 2015

O sacrifício da filha

O sacrifício de pai e filha tem suas raízes na dominação do feminino pelo poder masculino. Quando o masculino é desprovido de valores femininos, quando não permite ao principio feminino manifestar-se a seu próprio modo, a partir de seu centro natural, quando não concede ao feminino a multiplicidade de suas formas, mas o reduz apenas àquelas que servem à finalidade masculina, o masculino perde sua relação com os valores da dimensão feminina. É aí que o masculino se torna brutal e sacrifica não só a mulher exterior mas, também, o lado feminino interior.

A cisão no masculino cria o desejo pelo belo e o anseio pelo poder. A cisão masculina resultante nessas duas metades reduz o ideal feminino à beleza e à obediência.

A atitude de ser una consigo mesma é uma atitude interior da feminilidade centrada e independente. Muitas mulheres ainda hoje vivem para os homens e não para si mesmas. Entretanto, há aquelas que num movimento de reação, a fim de concretizar essa ruptura imitam o modelo masculino, perpetuando dessa forma a desvalorização do feminino. Outras, sentem-se impotentes e se enfurecem podendo ser extremamente obedientes e respeitar o sistema, mas no íntimo, manifestam sua raiva, por exemplo, eliminando o sexo, tendo casos amorosos extraconjugais por vingança, ultrapassando o limite de cartões de credito do marido, bebendo demais, adoecendo e assumindo uma postura hipocondríaca, depressiva, suicida, etc.

Talvez, a maior ferida que o homem sofra seja a de não admitir sua própria ferida. Muitos pais alimentam a ilusão de que devem ter sempre razão e justificativas para manter o controle e a autoridade. Perderam o poder de suas lagrimas e não souberam honrar seu próprio lado jovem, terno e feminino.

A relação harmônica entre os princípios masculino e feminino - o espirito - ainda não foi encontrada como agente eficaz nas vidas da maioria das pessoas.

Em nossa cultura, existem muitas mulheres sofrendo uma visão limitada da feminilidade, uma perspectiva estreita intimamente ligada à trama cultural e às posições existenciais dos pais e das mães. Essas mulheres muitas vezes sentem raiva e tomam consciência de que as imagens atribuídas às mulheres em nossa cultura patriarcal foram influenciadas por uma relação inadequada dos homens com a feminilidade. Apesar disso, sentem-se presas e impotentes.

As mulheres que, por outro lado, sabem como se sair bem no mundo masculino, que tem capacidade para trabalhar duro e serem úteis, que conquistam sua independência financeira,muitas vezes, sentem-se cansadas de ser fortes e anseiam por alguém que tome conta delas. Conscientemente, desempenham o papel da amazona de couraça; intimamente, desejam ser a bela, a eterna menina desejada pelos homens.Entretanto, muitas delas, no fundo, não aceitam a projeção de feminilidade feita pelo pai cultural.

O êxtase do feminino, onde se encontra uma fonte de poder autentico, que não tem necessidade de recorrer à aceitação por parte de algum homem externo ou de alguma instituição patriarcal pode ser expresso por Mirabai, poetisa hindu.Ela expressa em um dos seus poemas a experiência extática de uma mulher que sente sua própria centralidade feminina e o espirito que o anima. Robert Bly, poeta e tradutor de Mirabai para o inglês, escreve:" na autoconfiança que ela sente, desaparece a autopiedade". (O poema referido intitula-se "Por que Mira não pode voltar para sua antiga casa")

Em outro momento, falei sobre a eterna menina, a puella. Aqui, apresento características da amazona de couraça.

A cultura das amazonas, segundo a lenda, desvalorizou os homens ao eliminá-los de todas as posições de comando. Era comum faze-los escravos e usá-los como meio impessoal de procriação.
A figura masculina era despotencializada tanto física como socialmente. Os homens não eram necessários nessa sociedade porque as amazonas assumiram todas as funções masculinas. Tinham a reputação de serem conquistadoras e caçadoras, guerreiras selvagens e corajosas, e montavam em seus cavalos com toda a audácia. Treinavam suas filhas para seguirem o mesmo padrão. Segundo a lenda, removiam o seio direito para que pudessem manusear o arco e a flecha com mais eficiência. Segundo alguns autores, as amazonas eram filhas de Ares, o deus da guerra e da agressividade e, portanto, tinham essa postura bélica na vida e se viam como "guerreiras".

A amazona moderna foi descrita por June Singer em seu livro ANDROGYNY (Androginia) da seguinte maneira:
"A amazona é a mulher que assumiu características em geral associadas à disposição masculina, mas, em lugar de integrar os aspectos 'masculinos' que poderiam fortalece-la como mulher, ela se identifica com o poder 'masculino'. Ao mesmo tempo, renuncia à capacidade de se relacionar de modo amoroso, qualidade que tradicionalmente é vinculada ao feminino... de tal sorte que a amazona que assumiu o poder, na medida em que nega a capacidade de relacionar-se amorosamente com outros seres humanos, torna-se unilateral e, por conseguinte, é a vítima do próprio atributo que tentou suplantar".

Nosso tempo viu surgir uma reação feminina contra "Os Pais", reação essa dirigida contra a posição coletiva de autoridade masculina. Essa autoridade desvalorizou o feminino a tal ponto que mal consegue funcionar como espirito responsável e relacionado; em vez disso, tem sido irracional e unilateral em sua rígida visão do feminino. Essa tendência para a identificação e imitação do masculino nega as diferenças entre homens e mulheres. Quando as mulheres esperam alcançar as vitorias dos homens sendo como eles, a singularidade do feminino sofre uma sutil desvalorização, pois existe um pressuposto subjacente de que o masculino é mais poderoso.

..."Algum dia...algum dia haverá meninas e mulheres cujos nomes já não significarão apenas o oposto do masculino, e sim algo em si próprio, algo que leve as pessoas a pensar não em alguma forma de complemento e de limite, mas somente na vida e na existência: o ser humano feminino" (Rainer Maria Rilke, Letters to a Young poet, 1904)

Linda S.Leonard, descreve algumas modalidades de existência da reação amazônica diante do pai negligente, ou seja, as 'couraças de amazona' que protegem a mulher do pai irresponsável. Entretanto, ela não entende essas modalidades como tipos ou categorias dentro das quais as mulheres se enquadram com perfeição. São descrições fenomenológicas de alguns modos diferentes de comportamento, passiveis de se manifestar na vida das mulheres como resultado de uma reação ao pai negligente.


A SUPERSTAR

A reação ao pai mais frequente é a que leva a mulher a estabelecer sua identidade, através da relação com o trabalho; a que a leva a configurar um padrão bastante conhecido das viciadas em trabalho - o padrão workaholic. Em consequência, essas mulheres distanciam-se de seus sentimentos e recursos instintivos, o que muitas vezes resulta em depressão, perda de seu sentido de vida, pois que, em ultima analise, a identificação somente com o trabalho não basta.
Essa estratégia, muitas vezes de sobrevivência, de desenvolver o lado masculino e recolher uma identidade a partir dos resultados de suas conquistas profissionais, faz com que as superstars sintam que deixaram de lado a sensação feminina, isolando-a deste modo de seu próprio significado e existência como mulher.
A exagerada compensação na área profissional e das realizações não só elimina o principio feminino, como também, o aspecto espiritual da masculinidade. Para entrar em contato com este é preciso que antes aconteça o retorno aos sentimentos e aos instintos femininos. Ao se religar com o feminino, o trabalho pode assentar em bases adequadas.
A questão crucial é perceber o valor que tem a religação com o feminino, compreendendo o que é essencial para a mulher e valorizando esse dado.


A FILHA CONSCIENCIOSA

Embora, a imagem da filha conscienciosa crie a ilusão de bondade e virtude, também, nega a sombra e toda sua vida e criatividade. Nega uma expressiva parte da personalidade e, em ultima analise, o vinculo com o Self. Não é de admirar que tantas vezes aconteça a exaustão, a aridez e a ausência de significado. Por isso, essas mulheres costumam viver por trás de uma persona, moldada por uma imagem que na verdade não é a sua e que esta limitada ao dever, em muitas vezes, também a uma estrutura autoritária bastante estrita.
Para desencouraçar ou descartar a persona implica abrir-se e exibir os próprios lados sombrios e fracos, que foram suprimidos ou reprimidos pela obediência a uma autoridade forte e rígida. Esse  processo determina a perda do controle estipulado pela obediência e envolve uma certa margem de perigo, pois a dimensão anteriormente negada é subdesenvolvida e primitiva. Se esse processo de abertura não acontece em nível consciente, pode emergir de uma para outra em forma de colapso muitas vezes.
A filha conscienciosa geralmente se encontra a serviço de outrem, em detrimento de suas próprias possibilidades criativas e/ou de estabelecer relações.
A questão principal para as mulheres que caíram no padrão da 'filha conscienciosa' é perceber que o padrão de dever lhes foi imposto por outra pessoa. Para elas é importante que se deem conta de que essa imagem foi projetada e que não é sua de fato.


A MÁRTIR

Esse estilo de vida é marcado pela limitação e pelo ressentimento passivo, geralmente encoberto por uma fisionomia marcada por prolongados sofrimentos. Não é incomum essa mulher fazer o papel de santa martirizada em seu casamento, guardando silencio, jamais enfrentando o marido, suprimindo tanto a raiva como a alegria e, com essas emoções, sua sexualidade.
Devido à adaptação martirizada, essa mulher ve-se constrita pela limitação dos valores coletivos que inibem sua individualidade e sua singular beleza feminina.
Um dos principais aspectos do estilo de vida da mártir é ser uma escrava trabalhadora, como esposa, mãe ou em ambos os domínios.
O padrão mãe mártir aparece em geral, quando a filha ouviu a mãe criticar e menosprezar o pai continuamente, tachando-o de fraco e negligente. Se o pai não se opôs a isso com empenho, é comum que a filha assuma a atitude materna, consciente ou inconscientemente. Esse tipo de mulher entra no papel de mãe diante do marido, que, então, fica reduzido ao status de filho.
A autonegação é a estrutura principal dessa estrutura de personalidade. No papel de mãe-mártir existe traços de masoquismo passivo-submisso que encobrem um sentimento de superioridade, hostilidade e desprezo pelo homem.
O martírio é uma espécie de reação de defesa contra o fluxo das experiências. A mártir quer que a reconheçam e se apiedem dela por sua autonegação, fazendo um jogo com o sentimento de culpa dos que a cercam.

Essa mulher precisa se permitir entrar conscientemente no fluxo das experiências que incluem tanto a sexualidade como os impulsos criativos, reconhecendo-os, aceitando-os e formando-os. Precisa assumir uma responsabilidade ativa por sua própria força, em vez de usá-la de forma defensiva contra si e os outros e, assim, concretizar suas energias criativas.


A RAINHA GUERREIRA

Outra modalidade ainda de reação ao pai é tornar-se uma guerreira forte e determinada. Nesse caso, a filha se opõe a toda a irracionalidade experimentada como degeneração no pai e luta contra ele. Esse pai pode sacrificar a filha como reflexo de ausência geral de espirito. Seus principais interesses podem ser festas, acumulo de dinheiro e ambição por novos bens. Não dedicando tempo algum às filhas, pode estar expressando seu desgosto por elas nãos serem filhos. Quando se envolve com elas, a relação pode assumir a forma de terríveis explosões de ira e xingamentos. Em reação à destrutividade do pai negativo, consolida-se uma consciência rígida e negativa e a rejeição dos sentimentos e da vida.
Essa mulher tende a ser amarga e pode se dar conta de que só vive para trabalhar. É uma rainha triste e solitária que escolheu ter a vida de um homem. Dentro desse padrão de guerreira, o pai e, em geral, todos os outros homens são rejeitados e desprezados como seres fracos e a filha acha que só ela é forte o suficiente para fazer o que precisa ser feito. A ironia está em que o caminho dessa força é moldado por um modelo masculino e, por isso, o feminino ainda continua sendo desvalorizado por esse tipo de mulher.
É bastante comum perceber-se nesse tipo de mulheres os dentes rangendo, a determinação inabalável. Para as que vivem segundo esse tipo de existência, a vida se torna uma missão e uma serie de batalhas a serem vencidas, em vez de uma sucessão de momentos a serem desfrutados. Talvez esse seja o padrão adotado pela maioria das militantes quando insistem que não há diferenças entre homens e mulheres e reduzem a receptividade a uma passividade débil.
Aqui o ponto crucial é integrar suas forças de rainha guerreira, não através de um sistema armado de defesas; ao contrário, essa integração deve acontecer por intermédio de seu lado mais suave, para que essas forças passem a estar disponíveis de um modo feminino forte, que a expresse como mulher.



O DESESPERO DA AMAZONA DE COURAÇA

Quais são os traços comuns da amazona de couraça? O principal é seu desejo de controlar. Como costuma ver no homem uma pessoa fraca e impotente reage contra o uso irracional de poder que o caracteriza, apossando-se do poder. Estar no poder torna as coisas seguras, para que tudo esteja a salvo. Junto com o controle costuma vir uma dose exagerada de responsabilidades, deveres e sensação de exaustão. A necessidade de controle, geralmente, deve-se ao medo do irracional - que é assim, eliminado tanto quanto possível do âmbito de sua vida.Mas, quando isso acontece, ela se sente alienada da espontaneidade e do inesperado que são os elementos que dão sabor e encanto à vida.

Outro traço é estar distanciada dos sentimentos e das relações, pois sua necessidade de controle não lhes permite vivenciar tais coisas. Sempre que predominar essa atitude controladora, haverá uma separação das raízes mais profundas da criatividade e da espiritualidade.

Não é de se espantar, por conseguinte, que as amazonas terminem achando que a vida se tornou árida e destituída de significado.Também, não é de se surpreender que as forças espontâneas, até então reprimidas e suprimidas, subitamente se manifestem para se afirmar e desestabilizem a estrutura psíquica vigente, na forma de uma depressão ou de um ataque de ansiedade, e da sensação de que não é mais possível enfrentar as coisas.

Predomina na atitude amazônica uma ênfase excessiva sobre limitações e necessidades. Kierkegaard descreveu essa atitude como uma forma de desespero que chama de 'o desespero na necessidade': um distanciamento em relação à totalidade da pessoa acontece quando ela se identifica com a finitude e com a necessidade a ponto de negar as possibilidades, inclusive a possibilidade essencial do Self.

A postura da amazona de couraça é na verdade desesperada e sobre-humana. Por isso acontece o colapso dessa simulação de força com uma certa frequência. O desafio crucial das amazonas é aceitar a fraqueza, a depressão e a incapacidade de trabalhar e funcionar. É muito comum que isso represente um encontro com a própria ira e lagrimas, apesar da vergonha que se possa sentir pela própria fraqueza e falta de controle, aceitar a validade dos próprios sentimentos, propicia condições de fornecer uma nova humildade que as faça abrir-se e penetrar no fluxo da vida.


A CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO

É claro que o colapso total de uma amazona de couraça é uma situação radical. O que se espera é que haja uma transformação consciente antes desse colapso. Como poderá ocorrer essa transformação? Como é possível à mulher prisioneira de uma couraça de amazona se libertar?

Primeiro passo: ver em que tipo de armadura ela está presa. Sem essa identificação, continuará alimentando o padrão de se defender daquilo que tem por dentro. Ela vai precisar aceitar sua sombra de fraqueza. Diferente da puella, cuja postura consciente é a fraqueza, a adaptação do ego da amazona é a força e o poder. Porém, por baixo da concha de força é comum encontrarmos impotência, dependência e uma carência avassaladora, capaz de consumir os que estão a sua volta. 
A mártir se mascara de trabalhadora sofredora, mas, por dentro, é vítima da autocomiseração e quer que os outros sintam pena dela. A força da superstar está em suas realizações e conquistas, mas, quando estas perdem o significado, como é comum que aconteça porque muitas vezes são artifícios do ego para conseguir atenção, a probabilidade é que essa mulher entre numa dimensão de incapacidade para qualquer coisa. A confiável obediência da filha conscienciosa para trabalhar e colaborar com as exigências alheias pode encobrir uma revolta interna e o desejo de fugir. Sentimentos capazes de fazer ruir seu mundo organizado, deixando que ela e os outros fiquem à mercê da confusão e do caos. A natureza de gelo da rainha guerreira pode de repente derreter sob o sol de uma ligação emocional capaz de devastar tanto a mulher como o outro, porque é um vínculo de dependência totalmente possessivo.

Aceitar a sombra de fraqueza não significa entrar permanentemente na posição de puella , embora isso possa ser uma etapa necessária ao seu desenvolvimento. A amazona já desenvolveu bastante força e poder em sua vida, e isso tem um grande valor. Sua questão é levar essa força até à área  da qual tem medo. Não é fraqueza permanecer no âmbito do irracional, assim como não é fraqueza usá-lo como fonte de conhecimento. Pelo contrario, fraqueza é ser incapaz de confrontar-se com esse aspecto da vida. Se a amazona puder aprender a valorizar sua vulnerabilidade e os aspectos incontroláveis de sua existência, poderá criar uma nova fonte de forças.

Segundo passo: libertar-se da ideia de que precisa ser como um homem para ter poder.
Muitas amazonas são dominadas pela reação a um pai inadequado, tanto em nível cultural como pessoal. Sendo assim, é natural que uma identificação de ego com o masculino possa compensar aquilo que ficou subdesenvolvido em função do pai. A tendência que prevalece aqui é desenvolver a modalidade heroica de existência numa intensidade razoável. A amazona identifica-se, essencialmente, com o masculino heróico, e essa identificação precisa ser constatada e desmantelada. Se a amazona não pretende ter um esgotamento, precisa suavizar sua couraça; com isso terá mais facilidade em encontrar uma forma criativa de relacionar-se com o feminino e com a feminilidade dos homens, para que não fique destituída de relacionamentos.

A couraça da amazona pode ser suavizada por uma figura masculina amorosa. Essa imagem, 'o homem com coração' pode ajudar a mulher a encontrar dentro de si esse homem que gosta de mulheres e que consiga criar uma atmosfera gostosa, aconchegante e confortável. Casanova , o amante que amou muitas mulheres e fez com que todas se sentissem femininas e adoradas, poderia ser a imagem da figura masculina interior positiva, que faz a mulher se sentir bem a seu próprio respeito.
A mulher presa dentro da couraça da amazona está lutando contra a imagem do dom Juan, do 'velho pervertido', imagens do masculino que despreza as mulheres e sai pisando duro quando elas se mostram confiantes e atribuem valor a si mesmas. Nessa luta, porém, ela vai endurecendo. Por outro lado, o toque terno de Casanova tem uma relação sensível com o feminino. Com essa imagem, ela pode responder de modo criativo e receptivo e essa resposta procede do centro vigoroso de sua própria feminilidade.
Talvez esse aspecto masculino mais suave e delicado pareça primeiro um parvo, um tolo fraco e ineficiente que não sabe como fazer as coisas Mas, é justamente o novo e o desconhecido que tendem a faltar na vida da amazona, porque é disso que sua couraça a protege.

Em contraste com a puella, cuja tarefa de transformação consiste em aceitar sua força e desenvolve-la, a transformação da amazona envolve o ato de se suavizar e acolher a receptividade para poder, então, contar com a integração desses elementos à força que já está desenvolvida, em favor da manifestação criativa de seu espírito feminino.





Texto adaptado do livro de Linda Schierse Leonard, A MULHER FERIDA. Ed Saraiva





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Tecnologia e o Homem

Diante da crescente exposição do homem  à tecnologia , fica a questão: quanto estamos perdendo da nossa humanidade? 

Spike Jonze com o filme Her levou-me a pensar, ainda mais nessa questão.

A história começa a ser contada, através da personagem Theodore Twombly. Homem que vive de escrever cartas no lugar das pessoas que gostariam de expressar seus sentimentos , mas que preferem comprar as escritas pelos funcionários de uma empresa especializada nesse produto! São cartas cheias de gentilezas, gratidão, emoções e amor. Apesar disso, esse homem vive de maneira solitária e isolada. Tem poucos amigos e um casamento desfeito, ironicamente, por não conseguir expressar seus sentimentos ou lidar com  emoções mais complexas.
Nessa solidão tem como fonte de satisfação: vídeo game e sexo virtual , até comprar um sistema operacional que o faz sentir-se ouvido, compreendido, valorizado e nunca só. A disponibilidade desse sistema é incondicional e contínua. À medida que Theodore interage com Samantha (nome que o próprio SO se dá) acredita que está num relacionamento afetivo. Como consequência, recobra a alegria de viver. Sai com amigos e suas cartas ganham mais realidade. É capaz, cada vez mais, de expressar seus sentimentos com profundidade. Chega a ouvir de um colega que parece ter uma mulher dentro dele!
A vida segue em perfeita harmonia até o inadiável encontro com a mulher real, Catherine, sua ex-mulher.Marcam um almoço, para a assinatura do divórcio. Discutem e Catherine lhe mostra o absurdo de ter como namorada uma máquina, reforçando sua dificuldade em lidar com emoções e sentimentos reais. Theodore, apesar de buscar argumentos para se justificar, começa sua reflexão... Questiona Samantha e cai, cada vez mais na realidade, ou seja, que ela é um sistema operacional  tão sofisticado que não só tira muita gente da solidão, como ambiciona ser um humano, uma pessoa!
Esse SO é retirado do mercado, causando a sensação de desamparo em pessoas que, como Theodore, fizeram de seu SO a mais importante e, praticamente, exclusiva companhia.
Depois de muito refletir,Theodore  está mais consciente de si, da importância de ser quem é e de estar, de fato, nas relações. Finalmente, aceita o fim da historia que viveu com a mulher real, aceita o divórcio e lhe escreve uma carta. Expressa-se de modo maduro, profundo e espontâneo sobre a  história que viveram. Finalmente, acredita ter aprendido o que é o amor. Carta fechada.
Confiante, contempla novos horizontes  para sua vida afetiva.


A tecnologia proporciona recursos que parecem substituir as relações humanas de tão complexos. Ao mesmo tempo, apresenta-se tão simples e completa que nos seduz. De fato, uma ferramenta fascinante!
Entende-la e utilizá-la como tal, pode nos levar a enriquecimento, a crescimento pessoal, como foi, inicialmente, o caso de Theodore Twombly, de Spike Jonze. As relações interpessoais só tem a ganhar, desde que o homem seja sujeito desse uso e não a máquina.

domingo, 21 de setembro de 2014

O tédio e a consciência


A independência necessária para ser quem se é, ou seja, para seguir até aonde o impulso de autorrealização nos levar, trará desassossegos... Manter o equilíbrio entre ser e estar com tantas outras individualidades e e em meio a tantas realidades é o desafio que pode nos poupar do tédio indigno...Afinal, está aí um grande desafio. 

Um interior trabalhado para suportar a tensão provocada por conflitos é o que pode, também, acomodar com dignidade os momentos de tédio que, certamente, sobrevirão a todos em maior ou menor grau... Com maior ou menor nível de consciência... 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

PUELLA - A ETERNA MENINA


Texto adaptado por Maria Idalina O. de A. Germann


“Os pais da Bela Adormecida e da Cinderela por conta de suas atitudes frente ao feminino, levaram suas filhas a sofrer e a serem relegadas a posições subalternas e inativas. Bela Adormecida e Cinderela foram, afinal, salvas por príncipes da mesma forma que muitas mulheres que têm uma vida passiva (esse papel passivo é um dos caminhos para as mulheres que vivem o padrão da “eterna menina”) buscam segurança e proteção no casamento, apesar do sentimento de traição a si mesmas que a maioria delas vivencia.

Nossa cultura colaborou para essa traição.Durante muito tempo, as mulheres foram elogiadas pela anuência, adaptabilidade, delicadeza, jovial doçura, cooperação obediente com os maridos, que são a “forma de sua matéria”. As mulheres que tem suas vidas pautadas por esse padrão arquetípico de existência permaneceram simplesmente fixadas num nível infantil de desenvolvimento. Como Peter Pan preferem não amadurecer e são para sempre meninas. As vantagens dessa opção são compreensíveis. Pode ser confortável e excitante ser admirada como uma coisinha jovem e doce, depender de uma pessoa mais forte para tomar decisões importantes, deleitar-se com fantasias românticas sobre o Príncipe Encantado que consegue atravessar o espinheiro em torno da Bela Adormecida para salvá-la, flertar com as possibilidades, tornar-se a imagem de camelão do delírio de muitos homens e, até mesmo, esquivar-se diante da vida e passar os dias num mundo particular de faz-de-conta. Contudo, são inúmeras as desvantagens desse estilo de vida feminino! Em troca desses benefícios, a eterna menina muitas vezes abre mão de sua independência e acata uma vida passiva e dependente. Em vez de desenvolver-se nos planos pessoal e profissional, de elaborar sua própria identidade, de descobrir quem realmente é, através da difícil tarefa de autotransformação, a eterna menina em geral adquire sua identidade a partir das projeções feitas pelos outros sobre ela, entre as quais: a mulher fatal, a boa filha, a esposa, a anfitriã encantadora e, até mesmo, a heroína trágica. Em lugar de assumir a força e o poder do potencial que lhe é inerente e as responsabilidades que o acompanham, a eterna menina permanece frágil. Como uma boneca, permite aos outros fazerem de sua vida o que bem quiserem.

Daqui para frente, serão dados exemplos das variadas maneiras pelas quais esse tipo de existência pode ser manifestar. Não constituem “tipos” ou “categorias, nas quais, as mulheres possam ser encaixar com perfeição. Aliás, qualquer mulher pode viver vários desses estilos de vida em momentos e situações diferentes.


  1   A bonequinha engraçadinha


 Um estilo infantil freqüente é ter uma existência de “queridinha”.  Essa mulher se torna a imagem que seu homem espera dela, adaptando-se a suas fantasias sobre o feminino. Exteriormente, pode ate parecer segura e bem sucedida e, como uma princesa poderosa, ser alvo de inveja dos desejos secretos de muitas outras mulheres, porém, no íntimo, sua identidade é frágil e insegura, pois, na medida em que constantemente posa para os outros, não sabe de fato como é.
Quantas mulheres levaram quase a vida toda como esposas desse modo, sendo as companheiras e anfitriãs encantadoras para seus maridos, apenas para deparar com um divórcio, na meia idade, destituídas de força pessoal e crescimento?
Na peça de Ibsen, Casa de bonecas, esse padrão é claramente retratado. Nora, a personagem principal, é tratada pelo marido como sua boneca, seu brinquedinho, sua “tímida queridinha”, sua “esquilinha”, sua “cotovia”, sua “pequena gastadeira”, sua “passarinha cantora”, sua “cabecinha de vento” e, assim por diante; ela a chama por todos os apelidos usados para animais de estimação. Do ponto de vista de seu marido, Nora deve ser protegida, pois é incapaz de ser pratica, de lidar com dinheiro, de tomar decisões, de ser responsável. Ele lhe diz, por exemplo:
“Apenas apóia-te em mim: vou aconselhar-te e orientar-te. Eu não seria um homem de verdade se esse desamparo feminino não te tornasse duplamente atraente a meus olhos... Serei tanto a tua vontade como tua consciência”.

O que seu marido não sabe é que Nora já tinha cuidado dele pedindo emprestado algum dinheiro, quando ele adoecera, para cobrir os gastos de uma viagem essencial à recuperação de sua saúde. Sabendo que Torvald, com sua “independência masculina”, seria orgulhoso demais para se humilhar e aceitar dela a quantia, Nora manteve esse gesto em segredo. A crise e o confronto para Nora surgem quando o agiota ameaça denunciar sua trama. No inicio, tenta fazer tudo para impedir que o marido saiba a verdade e se vale de todo o encanto de que é capaz como “esquilinha”. Aos poucos, vai percebendo que ao proceder dessa forma está, de fato, escondendo-se dele, ocultando não só seu erro como sua competência e força. Quanto mais clara fica essa percepção, mais ela se decide a deixar que tudo venha à tona. Quando seu marido descobre a verdade e sua imagem publica esta sendo questionada, ele fica furioso e tem a confirmação de que ela é uma irresponsável. Furioso ele declara:
“Compreendes o que fizeste?...Toda falta de princípios de teu pai veio para ti. Nenhuma religião, nenhuma moralidade, nenhum senso do dever...”
Ao ouvir tais palavras, Nora entende que não pode mais continuar fingindo um papel e que deve se defender e enfrentá-lo. Quando o agiota retira a ameaça de denuncia e o marido a perdoa, pois agora a situação não representa mais nada de serio para ele, ela tem a oportunidade de derrubar de vez seu papel de boneca. Porém, dá-se conta de que a mudança de atitude só aconteceu por força de circunstâncias externas, pois continua vendo-a como uma criança. Sendo assim, ela o enfrenta dizendo que, pela primeira vez em oito anos de casamento, teriam uma conversa séria. Seu texto é o seguinte:
“Fui profundamente enganada, Torvald, primeiro por meu pai e depois por ti. Tu nunca me amaste. Só pensaste que era agradável me amar. Quando morava com meu pai, ele me punha a par de suas opiniões a respeito de tudo e, por isso, eu tinha as mesmas opiniões que ele. E, quando eu discordava dele, escondia o que achava porque isso o teria desagradado. Ele me chamava de bonequinha e brincava comigo da mesma forma que eu brincava com as minhas bonecas. Quando vim morar contido foi apenas uma transferência das mãos de meu pai para as tuas. Tu sempre dispuseste tudo de acordo com as tuas preferências e, por isso, fiquei tendo os mesmos gostos que tu, ou melhor, fingi que sim. Não tenho muita certeza do que realmente é”.
Para Nora, essa percepção vem acompanhada da constatação de que ela não sabe ao certo quem é, porque sempre dependente de algum homem. Entende que deve ficar sozinha para se conhecer e compreender e que precisa aprender a formar seu próprio conjunto de valores e opiniões, em vez de aceitar as opiniões alheias, coletivas. Na peça, sua decisão final é deixar o marido e os filhos e lutar sozinha para se encontrar. Embora essa possa parecer uma solução radical (principalmente porque Ibsen escreveu a peça em 1879), mesmo agora as mulheres sentem muitas vezes a necessidade de deixar a família e partir em busca de si mesmas. Compreender o significado desse ato como a percepção de que não é suficiente existir em função dos desejos e projeções dos maridos e que é necessário descobrir quem se é a partir de si mesma – é o mais importante.
 Pode muito bem ser que o pai, o marido e os homens em geral tenham, em suas projeções, contribuído para essa visão inadequada do feminino, mas a reação a essas projeções com atos de culpabilização apenas perpetua as projeções de passividade e dependência. Existe uma sombra a ser enfrentada, pois por trás da esposa cordata, existe uma mulher forte que secretamente manipula o marido, como faz Nora. A tarefa é começara a articular os próprios valores e opiniões e a aceitar conscientemente a própria força, usando-a de forma criativa e às claras.


2- A MENINA DE VIDRO

Outra forma de existência infantil é ser tímida e frágil, alheia à vida, em geral, habitando num mundo de fantasia. Há muitas mulheres que passam a vida na esfera da fantasia, talvez, animadas pela presença de um “amante imaginário” ou pela força de um sonho místico, incapazes de entrar no mundo real e de se relacionar com homens, prisioneiras da montanha de vidro de sua própria fantasia.
Em contraste com o padrão anterior, no qual o pai se projetara demais sobre a filha e, para quem a tarefa era libertar-se dessas projeções paternas e maritais, este padrão implica um pai ausente. Nesses casos, não há relação com o masculino, não há nenhuma influencia ativa e consciente com o pai, nenhum relacionamento com o mundo exterior. A mãe pode até fazer isso a seu próprio modo, mas, muitas vezes, ela mesma está vivendo na fantasia e não entende, de fato, a filha. Desprovida de projeções masculinas e de uma relação com o masculino, a “menina de vidro” cria seu próprio mundo, uma vida de fantasia que compensa seu isolamento em relação ao mundo exterior.
Muitas mulheres dão vida a esse padrão, mas é comum não nos inteirarmos dele porque tais pessoas se escondem. Quando, porem, seu universo de fantasia vem à luz, por um confronto com a realidade, é freqüente que apareçam na terapia.
Uma forma de se ocultar do mundo prático e extrovertido é retirar-se para o universo dos livros, em particular os de poesia e literatura fantástica.
Uma mulher que tinha crescido na pobreza, com um pai ausente e, cada centavo que conseguia ia para a sua coleção de animais de vidro e para os livros. Quando criança, sua historia predileta era a de uma órfã que tinha ido morar nos Alpes com seu avo cético e retirado. A protagonista era uma criança sociável e seu calor humano e espontaneidade incutiram vida e amor no avo e numa garotinha doente, presa ao leito. Ela era uma parte da personalidade dessa mulher, um lado que tinha sido menosprezado durante sua infância, mas que, finalmente, emergira a partir do momento em que sua autoconfiança aumentara. Por fim, ousou escrever para si mesma e, por esse meio, acabou sendo conhecida na esfera pública. Depois teve de enfrentar o circuito das palestras e passou por muitas fantasias de ansiedade do tipo “menina de vidro”, nas quais desmaiava na frente da platéia. Toda vez que fazia isso era um trauma, mas ela corria o risco e, dessa forma, pode trazer seu mundo interior a uma vinculação com o exterior, partilhando então sua visão particular da vida com outras pessoas.

3- A DESPREOCUPADA:  DON JUAN DE SAIA

A mulher despreocupada é outro padrão infantil. Essa menina vive de impulsos, tão despreocupada quanto o vento, exuberante. Parece ser espontânea e solta, levando uma vida louca excitante, ao sabor do momento, desfrutando o que estiver acontecendo.
A dificuldade para esse tipo de puella é que tenta viver por completo no domínio das possibilidades, ignorando as limitações e as realidades dos outros e de si mesma. O que ela precisa fazer, porém, é aceitar os limites e comprometer-se consigo mesma e com algo fora de si. Aceitar o paradoxo da finitude e da possibilidade é o caminho de sua resolução. Criar, através das varias formas artísticas, é uma alternativa para atingir essa finalidade. Por exemplo, Anaïs Nin transformou a existência de puella que havia em seu interior escrevendo, dando forma a suas intuições, integrando, assim, possibilidade e realidade.
Buscou psicoterapia uma mulher que estava apaixonada por um homem que também a amava, no entanto, ele lhe havia dito que, enquanto ela não “se acalmasse” e formasse uma noção de seu valor como pessoa, ele não poderia considerá-la uma verdadeira parceira. Sua finalidade era definir-se em vez de dispersar-se nos relacionamentos, como costuma lhe acontecer. Seu padrão era ir de homem em homem, e ela sentia que seu valor vinha do numero de amantes com quem dormia e também de suas diferentes nacionalidades. Era muito espontânea e freqüentemente ia para cama com quem mal acabara de conhecer na rua. Quando lhe pedia que anotasse seus sonhos e os trouxesse à consulta, esquecia de fazê-lo ou os anotava em antigas contas já pagas, em papel higiênico, em qualquer coisa que estivesse à mão no momento. No plano de seu desenvolvimento, sua mãe a queria “virgem” e seu pai não estivera emocionalmente próximo. Primeiro, tornou-se a queridinha da mamãe, a “boa menina”; depois, revoltou-se e encarnou o lado desconhecido dela. Em certo momento, teve um sonho no qual era um cachorrinho poodle frances, o animal predileto de sua mãe, e esta lhe oferecia algo especial para comer, recheado de veneno. Primeiro ela engole, depois vomita. Foi assim que se passou com ela em nível psicológico. Ela queria ter sido o animalzinho de estimação de sua mãe, mas vomitou o petisco “virgem”. Disso resultou sua virada de mesa completa e sua atitude de dormir com todos que pudesse. Seu pai não estava próximo o suficiente para lhe transmitir uma noção de seu próprio valor feminino. A tarefa que cabia a essa mulher consistia em aceitar que estava se revoltando contra a mãe através dessa vida de borboleta despreocupada, mas que isso, por outro lado, a impedia de relacionar-se com o homem a quem amava.

4. A DESAJUSTADA

Outro modelo de puella é a mulher que, em virtude de vergonha por causa de seu pai, é rejeitada pela sociedade e/ou se revolta contra ela. Essa mulher pode estar identificada com seu pai e permanecer ligada a ele de modo positivo; assim, quando a sociedade o rejeita, ela rejeita a sociedade.
Na família dessas mulheres é comum a mãe viver um papel critico, tornando-se a voz da consciência do “mau pai”.  Se a filha manifesta algum tipo de comportamento semelhante ao do pai, a mãe irá castigá-la, ameaçando-a com as mesmas fatalidades que se abateram sobre o destino do pai. A menos que a filha siga o “bom conselho” da mãe, ela deverá revoltar-se e reeditar o padrão paterno, repetindo seu lado autodestrutivo.
Dostoiévski descreveu esse padrão em muitas de suas personagens femininas cujos pais eram viciados de algum tipo. Parece-me que essas puellas em geral têm um “homem subterrâneo” na linha de Dostoiévski vivendo em seu íntimo, que se recusa com cinismo a assumir a possibilidade de ajudar e de mudar tanto a si quanto a sociedade que o rejeitou.
É provável que essas mulheres desperdicem suas vidas numa passividade inerte, entrando talvez no caminho do álcool ou do vício das drogas, da prostituição, alimentando fantasias suicidas ou talvez entrando em relacionamentos amorosos doentios. É possível ainda que se casem com homens semelhantes ao pai e que se desgastem com depressões e masoquismo diante de uma vida e de um relacionamento desprovidos de realização. De algum modo, como Perséfone, essas mulheres foram levadas ao escuro mundo subterrâneo de Plutão e lá permanecem com pouca ou nenhuma força de ego e desenvolvimento de animus que as possa ajudar.

Arthur Miller descreveu esse tipo de existência de puella em sua peça "Depois da queda", ao compor a personagem Maggie, em parte com base em sua ex-esposa, Marilyn Monroe.

O paradoxo, na raiz desse padrão puella, é que apesar de toda a real humilhação, vergonha e rejeição de sua historia passada, de que resulta sua autoidentificação com a vítima e com a desvalorização, o caminho da redenção está na luta contra essa identificação, ao invés de viver compulsivamente a vergonha e a repetição do padrão de rejeição. A tarefa é transformar a atitude de esperança, passando a afirmar conscientemente a si e a vida.

Um exemplo dessa atitude transformadora está no filme de Fellini "Noites de Cabíria."

Certa paciente teve um sonho, no qual, a figura do avo lhe dizia que sua terapeuta a havia diagnosticado como “aberração social”. Um de seus problemas era poder aceitar-se e desistir do papel de menininha boazinha que havia desempenhado na infância, principalmente tendo sido a queridinha de sua mãe. Estava implicado nessa questão o fato de que precisava confiar na capacidade de ser quem precisasse ser, independentemente dos julgamentos morais que sua terapeuta pudesse fazer. Precisava desidentificar-se da imagem negativa que tinha a seu próprio respeito, oriunda do comportamento de seu pai e do julgamento moral de sua mãe.

5. O DESESPERO DA PUELLA

A maioria das mulheres é bem capaz de reconher em si algumas das características dessas modalidades de existência pueril, podendo ocorrer que um desses padrões predomine em relação aos demais. Além disso, alguns dos padrões diferentes têm traços em comum. Por exemplo, o aspecto de rebeldia é muitas vezes uma parte da mulher despreocupada. A ênfase muito excessiva na conquista da atenção e da admiração dos homens pode aparecer tanto na bonequinha queridinha como na despreocupada e na desajustada. A ênfase na imaginação marca a puella tímida e frágil, assim como a despreocupada, embora esta concretize no mundo os vôos de sua imaginação, ao passo que a menina de vidro afasta-se do mundo para dentro de sua imaginação.
Um elemento comum a todos esses padrões pueris é o apego ou a uma inocência ou a uma culpa absolutizada que são os dois lados de uma mesma moeda, capaz de alimentar a dependência de outrem que reforce ou condene seus atos. Existe em todos a relutância em responsabilizar-se pela própria existência, a ausência de tomadas de decisões e de discriminações; é o outro que se incumbe disso. O relacionamento com os limites e as fronteiras também é precário: ou há a recusa em aceitá-los (a despreocupada e a desajustada), ou há a “ilimitada” aceitação (por exemplo, no caso da tímida reclusa e da bonequinha queridinha).
A puella conduz sua vida no âmbito das possibilidades e evita a realidade dos compromissos.  Permanecer no possível conduz a uma de duas direções principais: para os desejos e os anseios ou para a fantasia melancólica. A bonequinha queridinha e a despreocupada se inclinam na primeira direção, enquanto a menininha de vidro e a desajustada vão na segunda. Em todos os casos, porem, resulta a incapacidade de agir. Para que a ação seja verdadeira, é preciso a síntese e a integração tanto da possibilidade como da necessidade e é essa síntese, segundo Kierkegaard, que traduz um dos aspectos fundamentais da pessoalidade.

A questão central para a puella é afirmar-se como a pessoa que realmente é, já que sua tendência é conquistar sua identidade (ou falta de identidade) junto aos outros. Para entrar em contato com o mistério de sua alma, isto é, para “ser misteriosa” é necessário que discrimine, com objetividade, entre suas potencialidades e verdadeiras limitações, tornando, então, concreta a síntese resultante dessa percepção. A puella precisa aceitar seu potencial de força e desenvolve-lo a fim de efetuar a concretização do mesmo; precisa ,ainda,comprometer-se com seu ser misterioso e singular.
A base do problema pueril está no que Kierkegaard chama de “O desespero-fraqueza: o desespero de não desejar ser si mesma”. A adaptação de ego da puella foi, precisamente, ser fraca: ser passiva e desempenhar o papel desejado para ela pelos outros. Assim que se torna consciente de seu padrão, a puella percebe que está encarcerada, que foi barrada precocemente em seu desenvolvimento. Também, percebe que tem algo com que contribuir para o mundo, embora ainda não haja encontrado uma forma de fazê-lo. E como isso é frustrante: saber que se tem algo a contribuir e não ser capaz de fazê-lo! Esse é o desespero-fraqueza que pode levar a um recuso para dentro de si mesma, à adaptação ou à revolta. Mas pode, também, propiciar a transformação.

RUMO À TRANSFORMAÇÃO
O primeiro passo no caminho da transformação desse padrão é tomar consciência de que se está fora de contato com o Self, isto é, com as dimensões mais profundas existentes no seu íntimo. Com um poder maior do que a força dos impulsos do ego. Denominar o padrão dá à puella a perspectiva, a distancia de que necessita e o entendimento das razões pelas quais permaneceu fixada em seu desenvolvimento.

Denominar é um processo ativo.

Essa conscientização vem acompanhada de sofrimento e do segundo e necessário passo: o de aceitar esse sofrimento. Parte do problema da puella é sentir a própria fraqueza e dependência, é se ver como vítima. Identificada como vítima, recusa a responsabilidade e age como mocinha inocente. Por isso, a verdadeira compreensão da fraqueza e a aceitação do sofrimento envolvem o confronto com a sombra, com aquela parte da pessoa que é negada. A sombra da puella está vinculada ao poder, que ela não aceitou de fato, com responsabilidade. Muitas vezes, esse poder é assumido por uma figura na psique, um velho pervertido,figura mesquinha e de má índole que precisa, também, ser enfrentada. Parte da aceitação do sofrimento implica um combate com essa figura. Faz parte da aceitação do sofrimento perceber que esteve nas mãos desse velho perverso.
Por fim, o último passo: a percepção de que, apesar de nossa fraqueza, temos em nosso interior uma força, um acesso a esse poder superior aos impulsos do ego. Ou seja, o passo final é aceitar a força do Self e essa aceitação implica conscientização e escolha, escolha essa que não deve ser confundida com a força de vontade do ego. Trata-se da escolha que acontece nos fundamentos mesmos de nosso ser, em favor de aceitar o poder do Self. Para Kierkegaard, esse é em última instancia um ato de fé a exigir toda a força da receptividade.

A questão final é aceitar a força que existe no interior da própria pessoa e apoderar-se dela, em vez de desistir e seguir os padrões pueris habituais de fuga, afastamento, adaptação ou rebelião.

Onde é que a puella encontra pela primeira vez a revelação de que há uma força em seu interior? Tal revelação pode vir-lhe numa variedade de modos. As oportunidades estão por toda parte. Portanto, o segredo é estar atenta e aberta a elas.

Em ultima análise o que se exige de uma puella em seu processo de autotransformação é que renuncie a seu apego à dependência, à inocência e à impotência infantis e que aceite a força que já está ali: que realmente se valorize. Se ela aceitar sua força e poder, sua inocência de menina irá se manifestar como elã jovial e feminino, como vigor, como espontaneidade e abertura a novas experiências que possibilitem um relacionamento criativo e produtivo.”





Bibliografia:
“A mulher ferida” – em busca de um relacionamento responsável entre homens e mulheres.

Leonard, Linda Schierse








    






domingo, 7 de julho de 2013

INSATISFAÇÃO – Pontos para reflexão


Texto adaptado da teoria e clinica psicanalítica de J.-D. Nasio
Por Maria Idalina O. de A. Germann



       A crença na impossibilidade de satisfação plena, até mesmo por, inconscientemente, teme-la pode levar ao descontentamento - mantido pela  criação da fantasia de um Outro, ora forte, ora fraco e doente, sempre desproporcional e decepcionante em relação às nossas expectativas. Por esse motivo, qualquer troca com o Outro conduz inexoravelmente à insatisfação.

       A realidade cotidiana é moldada pela fantasia e as pessoas próximas, amadas ou odiadas, desempenham um papel de um Outro portador de insatisfação. Há sempre a busca por algum sinal de poder humilhante no Outro que traz a infelicidade ou de sua impotência que, apesar de comover, não é possível de ser resolvida, remediada. Enfim, quer se trate do poder do outro ou da falha, seja com o Outro da fantasia ou da realidade – é sempre a insatisfação a guardiã do perigo absoluto da satisfação plena. Para se certificar do estado de insatisfação, há sempre a busca pelo poder do outro que subjuga ou sua impotência que atrai e desaponta.

     Outra maneira de manter-se como um ser insatisfeito é erotizar, sexualizar expressões que não sejam de natureza sexual. É apropriar-se, através das próprias fantasias de conteúdo sexual – e das quais não necessariamente se tem consciência -, de qualquer palavra ou qualquer silencio que perceba no outro ou que dirija ao outro. Sexualizar  o que não é sexual significa, aqui, transformar aquilo que  pouco ou nada altera numa situação maior em um sinal evocador e promissor de uma relação sexual.  Além de se  transformar qualquer gesto em indício de desejo do outro em ter uma relação sexual, há também a criação de sinais sexuais que levam o outro a crer que o que se deseja  é enveredar pelo caminho de um ato sexual consumado. Entretanto, no íntimo, o desejo é que esse ato fracasse ,não se realize. Apegando-se ao desejo inconsciente da não realização do ato pode-se permanecer insatisfeito.


      O esforço para sexualizar a realidade exige uma capacidade de ser maleável a ponto de se estirar, sem descontinuidade, desde o ponto mais íntimo do próprio ser até a borda mais externa do mundo, tornando incerta a fronteira que separa os objetos internos dos objetos externos.


     Essa plasticidade singular, no entanto, instala a pessoa numa realidade confusa, meio real e meio fantasiada, onde se desenrola o jogo cruel e doloroso das identificações múltiplas e contraditórias com diversos personagens, e ao preço de permanecer estranho a sua própria identidade de ser e, mais particularmente, a sua identidade de ser sexuado.

     Por isso, é possível haver tanto uma identificação com o homem, com a mulher ou com o ponto de fratura de um casal, isto é, é possível encarnar a própria insatisfação que aflige um casal.


     Nesse contexto é muito frequente constatar o quanto pode ser adotada, com surpreendente desenvoltura, tanto o papel do homem quanto o da mulher, mas, principalmente, o papel do terceiro personagem através de quem o conflito surge ou, ao contrário, graças a quem o conflito é aplacado. Quer o conflito seja desencadeado ou eliminado, seja homem ou mulher – o que invariavelmente acontece é  a pessoa ocupar o papel de excluído. E deste fato, ou seja, de ser rejeitado para o lugar de excluído que se explica a tristeza que acompanha a insatisfação. E é nesses momentos de tristeza e depressão que se pode constatar a identificação da pessoa com o sofrimento próprio da insatisfação; ficando nela a impossibilidade de se dizer homem ou mulher, de afirmar, muito simplesmente, a identidade de seu sexo. A tristeza, aqui, corresponde ao vazio e à incerteza de uma identidade sexuada.

           A maneira com que nos defendemos de uma dor intolerável pode muitas vezes ser inadequada. Defendemo-nos mal porque, para aplacar o caráter intolerável de uma dor, não tivemos outro recurso senão transformá-la em sofrimento neurótico (sintomas). O que fazemos é substituir um sofrimento inconsciente por um consciente, suportável e, em última instancia redutível. Podemos sofrer segundo o modo obsessivo - sofrimento do pensar. Como fóbico: sofrimento com o mundo que nos cerca, projetando o gozo inconsciente e intolerável e cristalizando-o num elemento do ambiente externo - o objeto ameaçador da fobia.Por último, sofrer segundo o modo  histérico - sofrer conscientemente no corpo, ou seja, converter o gozo inconsciente e intolerável num sofrimento corporal. Numa palavra, o gozo intolerável  converte-se em distúrbios do corpo na histeria, desloca-se para um desarranjo do pensamento na obsessão, e expulsa-se, voltando imediatamente como um perigo externo, na fobia.




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NARCISISMO - Um olhar à luz do Mito de Narciso.


Atualmente, o narcisismo é tido como sinônimo de autoestima elevada entre um número cada vez maior de pessoas. Essa percepção fez com que buscasse no mito de Narciso uma compreensão melhor desse fenômeno.

Ovídio, poeta romano, que viveu entre 43 aC e 17 ou 18 dC, conta que Narciso aos dezesseis, dezessete anos podia ser tomado quer como garoto, quer como homem. Muitos jovens e muitas donzelas procuraram o seu amor; mas, naquela esbelta forma, era tão frio o orgulho que não houve jovem ou donzela que lhe tocasse o coração. Uma dessas jovens rejeitadas pede aos céus que ele possa amar a si mesmo e não obter aquilo que ama. A deusa Nêmesis ouve e atende essa justa prece.

Narciso, exausto pela caça e pelo calor é atraído certa vez para perto de uma fonte de água límpida, cuja superfície perfeita, jamais havia sido maculada por ave, besta ou galho caído. Enquanto tenta aplacar sua sede, outra sede o acomete e, enquanto bebe, enamora-se pela visão da bela forma que vê. Qual seria hoje essa superfície que reflete a imagem que gostaríamos de ver refletida. Essa imagem esculpida, trabalhada, produzida de forma a “causar”?

Que imagem Narciso vê refletida? Por quem se enamora? Ele enamora-se da visão, da bela forma que vê. Ele ama uma esperança sem substância e cre ser substância o que não passa de sombra. Estendido no solo observa seus próprios olhos, estrelas gêmeas... E seus cabelos? Dignos de Baco, de Apolo...Observa suas bem talhadas faces, seu pescoço de marfim, a gloriosa beleza de seu rosto, o rosado combinado à brancura da neve: enfim, tudo aquilo que nele provoca admiração é por ele mesmo admirado. Ele não sabe o que vê, mas arde de amor por essa imagem - a mesma ilusão que zomba dos seus olhos e o enfeitiça.

Não é isso que observamos cada vez mais: pessoas amando a imagem que veem refletida em espelhos ou nos olhares que provocam?

Nessa parte do mito, Narciso é questionado: Ó jovem, apaixonadamente tolo, por que buscas, debalde, abraçar uma imagem fluida? Aquilo que procuras não está em parte alguma; mas, dai as costas e o objeto de seu amor já não existirá.

A angústia de Narciso assemelha-se à das pessoas que ao não se sentirem admiradas, desejadas e ao não se verem refletidas pelo outro como imagem excepcional e exclusiva, acreditam-se vazias, sem importância. Muitas descrevem uma sensação de não existência, vivenciando assim, uma grande angustia existencial.

Continua Narciso “O próprio [objeto do meu amor] está ávido por ser abraçado. Pois, sempre que estendo meus lábios na direção da luminosa onda, ele, com a face levantada tenta chegar com seus lábios aos meus. Diríeis que ele pode ser tocado – tão frágil é a barreira que nos separa os corações apaixonados. Quem quer que sejas, vem até mim! Por que, jovem ímpar, me escapas? ...
 – Oh! Eu sou ele! Eu o senti, conheço agora minha própria imagem. Ardo de amor por mim mesmo; eu mesmo provoco chamas e sofro o seu efeito. Que devo fazer? Devo cortejar ou ser cortejado? E, afinal, para que faze-lo? O que eu desejo, eu tenho; a própria abundância da minha riqueza me faz mendigo...”

Narciso, desesperado, golpeia com suas próprias mãos o peito nu...

Segue o mito: Ele deitou sua torturada cabeça na verde grama e a morte fechou os olhos que se maravilharam à visão da beleza do seu senhor. E mesmo quando foi recebido nas moradas infernais, continuou a fitar sua própria imagem na fonte do Estige...

O corpo de Narciso não foi encontrado para ser colocado num ataúde. Em seu lugar, encontraram uma flor, cujo centro amarelo estava cercado de pétalas brancas.


O mito de Narciso revela um importante aspecto do narcisismo: a busca na realidade externa de si mesmo , como se o Si-mesmo (o Self) estivesse fora, em alguma parte ou em alguém, que não em si: “Aquilo que desejo, tenho.”


Estar separado de si, ou seja, não conhecer a si mesmo ou, ainda, não se apropriar de si mesmo, são condições que têm levado cada vez mais pessoas a essa busca que o mito de Narciso tão bem descreve. Se Narciso pudesse sentir sua existência, seu valor, sua maneira de ser, independentemente, dessa imagem fluida que lhe é refletida, como uma esperança sem substância, não teria encontrado na morte a solução para seus problemas.

 A morte no narcisismo é a sensação de vazio que angustia aquele que não se vê refletido. Lembrando mais uma vez: “O que procuras não está em parte alguma; dai as costas e o objeto de seu amor já não existirá.”

Sem dúvida, pessoas conscientes de si e de seu valor, são mais maduras e capazes de relacionamentos saudáveis. Escolhem com maior facilidade aquilo que as satisfaz, aquilo que vem ao encontro de sua maneira de ser, sentir e pensar a própria vida e a realidade que as cerca. 

Bibliografia:
Schwartz- Salant, Nathan
Narcisismo e Transformação do Caráter - A Psicologia das Desordens do Cárater Narcisista
Ed. Cultrix